Fala, Pedroso!

Augusto Cury e o cansaço com os extremos

O candidato pelo Avante ganhou destaque nas últimas pesquisas eleitorais, impulsionado pela rejeição de Lula e Flávio Bolsonaro

Augusto Cury
Foto: Reprodução

Muita gente acordou surpresa nesta segunda-feira. Duas pesquisas divulgadas na mesma manhã, a BTG Pactual/Nexus e a AtlasIntel/Bloomberg, colocaram Augusto Cury na terceira posição da corrida presidencial. Um escritor sem mandato, sem histórico de disputa eleitoral, filiado a um partido pequeno.

Uma ressalva importante, na BTG/Nexus, com margem de 2 pontos, Cury tem 11% e está sozinho em terceiro. Na Atlas, com margem de 1 ponto, ele tem 7,8% e Renan Santos tem 7,6%. Isso é empate técnico. Boa parte dos analistas hoje tratou os dois casos como se fossem a mesma coisa.

Independentemente do número final, o movimento em si é grande em ambos os casos.

Na BTG/Nexus, de uma onda para a outra, Lula caiu de 41% para 39% e Flávio Bolsonaro caiu de 37% para 33%. Repare no detalhe. A maior perda não é do candidato do PT. É do candidato do PL, quatro pontos em uma semana. E ele vinha subindo: estava com 33% no fim de julho e chegou a 37% na semana passada. A queda interrompe uma recuperação.

Mas o número que melhor explica o que aconteceu é outro. Na pesquisa espontânea, aquela em que ninguém oferece lista e o eleitor precisa lembrar de um nome sozinho, Cury saiu de zero e chegou a 8%. Na onda anterior, ele nem sequer era lembrado. Sete dias depois, um em cada doze brasileiros diz o nome dele sem que ninguém tenha sugerido.

Como um candidato sem estrutura, sem militância de rua, sem prefeito algum e sem máquina partidária chega a esse patamar em uma semana?

A resposta mais honesta talvez não esteja nele, e sim nos adversários.

A mesma pesquisa da Atlas mede a rejeição de cada nome. Flávio Bolsonaro tem 52,7%. Lula tem 52%. Cury tem 18,5%. Repare que os dois primeiros somados passam de cem, o que só é possível se houver um contingente grande de brasileiros que rejeita os dois ao mesmo tempo. É esse eleitorado que atravessou a eleição inteira sem lugar para ir.

O que vimos na semana passada foi ele encontrando um endereço. Ou pelo menos testando a opção. No debate do dia 23, enquanto os outros disputavam quem falava mais alto, Cury falou em pacificação. Pode ser ingenuidade ou cálculo. O que sabemos é que aparentemente funcionou.

Mas aqui os microdados pedem cuidado. A BTG cruzou intenção de voto com posição na polarização. Se a explicação fosse apenas o cansaço com os extremos, o melhor desempenho de Cury estaria entre os não polarizados e entre quem rejeita os dois lados. Nesses grupos ele tem 19%. O melhor segmento dele, com 26%, é o eleitor que enxerga Bolsonaro como alternativa. E ele marca 13% entre quem votou em Bolsonaro em 2022, contra 7% entre quem votou em Lula. O cansaço é real, mas não é simétrico.

Só que essa rejeição baixa não é apenas uma qualidade do candidato. É também a medida de quanto tempo ele passou fora do alvo. Cury cresceu sem receber um único ataque organizado, sem inserção adversária, sem uma semana de imprensa em cima das propostas. O horário eleitoral começou no dia 28. Até ali, ninguém tinha motivo para gastar segundos com um candidato de 2%. A partir desta semana, todos têm.

Há ainda um detalhe de calendário que muda a leitura das duas pesquisas. A sabatina do Jornal Nacional foi no sábado, dia 29, à noite, e os dois campos fecharam no dia 30. Ou seja, esses números medem o efeito do debate e da onda de vídeos nas redes. O efeito da sabatina praticamente não entrou. Ele vai aparecer na próxima onda de pesquisas.

E foi ali que ele enfrentou os questionamentos mais duros até agora, sobre detalhes do plano de governo que não conseguiu explicar por completo. Para a sorte dele, é uma dificuldade que os adversários também tiveram nas próprias sabatinas.

A campanha está só começando e o eleitor vai olhar com mais atenção o cardápio que lhe apresentaram. Inclusive o prato que ainda não foi servido. Nenhum dos dois institutos testou Augusto Cury em segundo turno, nem contra Lula nem contra Flávio Bolsonaro, mas a BTG fez outra coisa: Perguntou ao eleitor de cada candidato como votaria num segundo turno entre os dois líderes. Entre os eleitores de Cury, 46% vão para Flávio, 23% vão para Lula e 29% ficam em branco ou nulo. Dois para um em direção ao PL. Enquanto ninguém testar Cury naquela simulação é isso que temos. E o que temos diz que existe um terceiro colocado. Se existe uma terceira via viável, isso é outra conversa.

*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.