Fala, Pedroso!

Quem perde quando um candidato falta ao debate

Ver o candidato ser confrontado por um adversário não é entretenimento de televisão, é prévia do serviço

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Jeulliano Pedroso no Tribuno da Massa. Foto: Rede Massa

Domingo à noite, o púlpito de Sergio Moro ficou aceso e vazio no estúdio da Band durante todo o programa. Requião Filho e Sandro Alex conversaram entre si. A mediadora teve que improvisar a dinâmica ao vivo, porque parte das perguntas não tinha para quem ir.

O detalhe que não deveria passar batido é que a campanha do senador participou das reuniões de organização e assinou as regras do encontro. A desistência veio poucas horas antes do ar, com a alegação de um acordo entre adversários para atacá-lo.

Moro não foi o único. Na mesma noite faltaram Eduardo Paes no Rio, Pedro Brito no Ceará e Roberto Cidade no Amazonas. Só que as justificativas não valem o mesmo. Paes alegou orientação jurídica e disse que só debate depois de 16 de agosto, quando a campanha começa oficialmente. Dá para discordar, mas é uma razão com data e que vale para qualquer emissora. Acusar os concorrentes de conluio é outra coisa. Isso exige evidência.

Sobre o resto, minha posição é a mesma.

O debate é o momento mais honesto de uma campanha. Não porque o candidato passe a falar a verdade ali, mas porque ali ele não tem para onde correr. Quem já trabalhou com programa ao vivo conhece a diferença. No gravado, você erra e pede para voltar. No debate, o erro fica.

E é essa versão sem maquiagem que interessa a quem vai votar. Governar é decidir sob pressão, com gente gritando dos dois lados e sem tempo de consultar o assessor. Ver o candidato ser confrontado por um adversário não é entretenimento de televisão. É prévia do serviço. Serve, entre outras coisas, para descobrir se a coragem do palanque é coragem mesmo ou se é coragem da boca para fora.

Há uma inversão que o candidato às vezes esquece. Quem contrata é o eleitor. O patrão é quem está em casa assistindo. Marca-se a entrevista de emprego diante de milhões de pessoas, com transmissão gratuita, e o candidato manda avisar que não vai. Faça isso numa seleção comum e o destino do seu currículo provavelmente será o lixo.

Vale lembrar também de quem é o debate. Não é da emissora, nem dos jornalistas, nem dos candidatos para brigarem entre si. O debate é do eleitor. Quando um falta, os adversários não perdem nada. Ganham tempo de fala de graça, o que raramente é castigo. Quem fica sem informação é quem estava assistindo.

E tem muita gente assistindo sem decisão tomada. Na Genial/Quaest de julho, 64% dos paranaenses disseram que ainda podem mudar de voto até outubro. No cenário espontâneo, quando o entrevistador não apresenta a lista, 83% não souberam apontar ninguém. Esse eleitor não vai atrás de plano de governo em site oficial. Ele decide pelo que vê na tela.

Sem debate, sobra a propaganda. E propaganda todo mundo sabe fazer: é bonita, é controlada, é gravada de novo até sair perfeita.

O problema é depois. Compra errada tem conserto. Você devolve, troca, reclama, e a lei está do seu lado. Voto errado não tem devolução. Você convive com ele por quatro anos.

*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.