MERCADO IMOBILIÁRIO

Chapecó se aproxima dos 300 mil habitantes e entra em uma nova fase do mercado imobiliário

Crescimento populacional, mais de R$ 1 bilhão em negócios no Salão do Imóvel e novos produtos mostram uma cidade maior, mais segmentada e sofisticada e que exige decisões imobiliárias cada vez mais estudadas.

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Divulgação: Salão Imóvel Chapecó

Estive em Chapecó na semana passada (26 a 30 de agosto), para acompanhar de perto o 20º Salão do Imóvel e a 2ª Techcon. Atendo várias incorporadoras e loteadoras que atuam na região oeste catarinense, com análises voltadas ao entendimento do mercado imobiliário, e queria perceber, além dos números, o que efetivamente está acontecendo por lá. 

O Salão encerrou com impressionantes R$ 1,155 bilhão em contratos formalizados e encaminhados, segundo dados divulgados pelos organizadores. Foram mais de 36 mil pessoas que passaram pela feira, vindas de 225 cidades, 16 estados e cinco países. Ao todo, foram mais de 300 expositores reunidos no Parque da Efapi. 

É um resultado expressivo para qualquer mercado imobiliário regional. 

Mas, andando pela feira, conversando com empresários e observando os produtos que estão sendo lançados, minha percepção é que o tamanho alcançado pelo Salão é consequência de algo maior. A cidade de Chapecó mudou de escala. 

A nova estimativa populacional divulgada pelo IBGE ajuda a explicar esse movimento. Chapecó chegou a 289.170 habitantes em 2026, contra 282.648 no ano anterior. Foram 6.522 novos moradores em apenas um ano, um crescimento de 2,31%. O município aparece entre as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes que mais cresceram proporcionalmente. 

Quando ampliamos um pouco a análise, o movimento impressiona ainda mais. Chapecó tinha 183.530 habitantes em 2010. Chegou a 254.785 no Censo de 2022 e agora já ultrapassa os 289 mil. Estamos falando de mais de 105 mil novos habitantes em relação a 2010

É praticamente uma nova cidade incorporada a Chapecó em pouco mais de uma década. Naturalmente, esse crescimento aumenta a demanda por moradia, pressiona a infraestrutura urbana e, ao mesmo tempo, movimenta o mercado imobiliário. 

A Prefeitura de Chapecó informou recentemente que foram autorizados mais de 11 milhões de metros quadrados de construção nos últimos cinco anos. Nesse mesmo período foram aprovados 47 novos loteamentos e 12 condomínios fechados, resultando em mais de 3 mil novos lotes disponibilizados para comercialização. 

Quando juntamos crescimento populacional, geração de empregos, atividade empresarial, construção civil e volume de investimentos, fica mais fácil entender a dimensão que o Salão do Imóvel alcançou. 

Entretanto, além da quantidade de produtos imobiliários, algo que também me chamou a atenção foi a diversidade. Quando uma cidade cresce rapidamente, o primeiro movimento normalmente é quantitativo, onde aumenta a necessidade de moradia e, consequentemente, a produção imobiliária. Em Chapecó, porém, me parece que já estamos vendo uma segunda etapa desse processo. O mercado começa a se dividir em públicos, faixas de renda, estilos de vida e diferentes momentos da jornada imobiliária. 

Isso ficou bastante evidente nos produtos apresentados durante o Salão. 

No segmento de entrada, por exemplo, o Condá Residence, da Construtora Piacentini, foi apresentado em pré-lançamento com apartamentos de dois dormitórios e alternativas voltadas também ao Minha Casa, Minha Vida. O projeto chega ao bairro Jardins do Vale e trabalha ainda com opções com suíte e unidades Garden. É um produto que conversa com uma demanda fundamental em qualquer cidade que cresce, onde existem famílias buscando o primeiro imóvel e consumidores que passam a ter capacidade de sair do aluguel e entrar no mercado formal de aquisição. 

Em outro extremo está o mercado de maior valor agregado. 

A Gamma Empreendimentos, por exemplo,  apresentou o Oriundi Jardim Itália, projeto com 25 pavimentos e apenas 54 apartamentos. Além da baixa densidade de unidades por empreendimento, chama a atenção a tentativa de construir uma narrativa própria para o produto, incorporando elementos ligados à cultura do vinho, com adega climatizada, wine lockers e espaços voltados a experiências. 

Mais do que metragem e localização, começa a aparecer algo que mercados imobiliários mais maduros já conhecem bem. O consumidor de maior renda não compra apenas área privativa. Compra arquitetura, conceito, serviços, exclusividade e identidade. 

O Jardim Itália, onde estão projetos como o Oriundi e o Bosco, da Famex Empreendimentos, ajuda a mostrar outro fenômeno interessante. Determinadas regiões da cidade começam a construir uma identidade imobiliária própria, atraindo novos empreendimentos e consolidando vetores de verticalização e valorização. 

No mercado horizontal, o movimento também é relevante

O Vivens, da Urbânica Desenvolvimento Urbano, ocupa mais de 320 mil metros quadrados e reúne 382 lotes. Mas talvez o aspecto mais interessante seja sua proposta de localização: oferecer a estrutura, a segurança e a qualidade ambiental de um condomínio fechado sem obrigar o morador a romper sua relação cotidiana com a cidade. O próprio posicionamento do empreendimento enfatiza a proximidade com a região central. 

Isso revela uma mudança importante no comportamento do comprador. Durante muito tempo, morar em condomínio horizontal fechado significava aceitar maiores deslocamentos em troca de segurança, espaço e lazer. Agora começa a ganhar força outra combinação onde o consumidor quer segurança e qualidade de vida, mas também quer conexão, conveniência e menos tempo perdido no trânsito. 

Divulgação: Salão Imóvel Chapecó

Existe ainda uma camada mais sofisticada desse processo. 

A chegada do Tonino Lamborghini Residences Chapecó, da SM Santa Maria, coloca a cidade no universo dos chamados branded residences, que já falamos aqui no portal, onde empreendimentos imobiliários são associados a marcas reconhecidas internacionalmente. 

O projeto leva a assinatura Tonino Lamborghini e incorpora design, tecnologia, automação e elementos do chamado lifestyle italiano. As plantas chegam a 217 metros quadrados e o empreendimento trabalha claramente com uma lógica de experiência e exclusividade, e não apenas com atributos tradicionais de um apartamento de alto padrão. 

Outro movimento nessa direção apareceu com o Faro Concept Eleven, da Conceito Empreendimentos, desenvolvido em parceria com o Faro Imobiliário, operação idealizada pelo empresário e apresentador Rodrigo Faro. 

Independentemente das diferenças entre esses projetos, o fenômeno merece atenção. 

Chapecó começa a entrar em um estágio no qual a diferenciação imobiliária passa também pela marca, pelo conceito, pela experiência e pelo posicionamento do empreendimento. 

Em uma cidade que se aproxima dos 300 mil moradores, com uma economia regional forte e capacidade crescente de atração de população e investimentos, passa a fazer sentido este movimento. E talvez este seja um dos sinais mais interessantes do amadurecimento do mercado imobiliário local. 

Chapecó já não possui apenas um comprador

Existe quem busca o primeiro imóvel, a família que quer sair de um apartamento menor para um produto melhor. Também empresários, investidores, compradores de terrenos. Há quem prefira condomínio horizontal e aqueles clientes que buscam arquitetura diferenciada, serviços, exclusividade, marca e experiência. 

À medida que a cidade cresce, portanto, a demanda deixa de ser apenas maior. Ela se torna mais complexa. E isso muda completamente o jogo para incorporadoras e loteadoras. Porque quanto maior a segmentação, menor o espaço para imaginar que qualquer bom terreno aceita qualquer produto. 

É preciso entender renda, capacidade de pagamento, localização, tipologia, metragem, padrão construtivo, disposição a pagar e, principalmente, quantas famílias efetivamente existem para cada proposta imobiliária. 

Essa percepção ajuda também a explicar as palavras de Alexandre Fiorini, empresário da Fiorini Construtora e presidente do Sinduscon-Oeste, ao analisar os resultados da feira. Reunir toda a cadeia produtiva e superar R$ 1 bilhão em negócios, segundo ele, “demonstrou a maturidade alcançada pela indústria local”. 

A palavra me parece bastante adequada, pois, o mercado de Chapecó não está simplesmente ficando maior. Está ficando mais segmentado, sofisticado, profissional e, inevitavelmente, mais competitivo. 

E foi justamente por isso que considerei especialmente interessante ver a Techcon acontecendo simultaneamente ao Salão do Imóvel

De um lado estavam os empreendimentos, incorporadoras, loteadoras, imobiliárias, compradores e investidores. Do outro, estava a discussão sobre como essa nova cidade será construída. 

Durante a programação da Techcon, o I Seminário da Construção Civil colocou em debate temas como cidades inteligentes, Lean Construction, produtividade, segurança, gestão e análise de dados. A palestra sobre Lean, por exemplo, tratou diretamente da redução de desperdícios e da melhoria da eficiência nos canteiros. 

O SENAI também levou uma unidade móvel para dentro da feira, com laboratório, equipamentos e minicursos relacionados a planejamento de obras, melhoria contínua, produtividade e segurança. 

Na área externa, máquinas para terraplenagem, movimentação de materiais, pavimentação e diferentes etapas da construção transformaram parte da Techcon em uma vitrine prática de tecnologia e equipamentos disponíveis para o setor. 

Essa conexão entre as duas feiras talvez represente muito bem o desafio que Chapecó terá pela frente. Onde não basta produzir mais imóveis, mas, produzir melhor. Com crescimento populacional, maior volume de obras e pressão por mão de obra, produtividade e custos passam a ter peso ainda maior. Industrialização, planejamento, BIM, Lean Construction, automação e novas tecnologias deixam gradativamente de ser temas periféricos para entrar na estratégia das empresas. 

Ao mesmo tempo, uma cidade que ganhou mais de 100 mil habitantes em pouco mais de uma década precisa fazer com que infraestrutura, mobilidade, saneamento, serviços e planejamento urbano acompanhem essa velocidade. 

Isso significa que também não basta mais olhar apenas para dentro dos empreendimentos. 

Será cada vez mais importante entender onde as pessoas irão morar e trabalhar, quanto tempo gastarão nos deslocamentos, quais regiões poderão receber maior adensamento, onde surgirão novas centralidades e como comércio, serviços e infraestrutura acompanharão essa expansão. 

Uma Chapecó próxima dos 300 mil habitantes não será simplesmente uma versão maior da cidade que existia em 2010. Será uma cidade com outra escala, outros consumidores, outras formas de morar e novos desafios para quem desenvolve produtos imobiliários. 

Saio de Chapecó com a convicção de que ainda existe muito espaço para desenvolvimento imobiliário na cidade, mas haverá cada vez menos espaço para decisões pouco estudadas. 

Agora, talvez a discussão mais interessante não seja apenas quanto Chapecó ainda vai construir. É entender como será construir e morar na Chapecó dos 300 mil habitantes