Coluna

Eleições 2026: Duas horas a mais, muita confiança a menos

Eleições 2026
Eleições 2026 entram para história com decisão inédita (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)

As Eleições de 2026 já tinham entrado para a história pelo volume de liminares. Faltava o desfecho, e ele veio às 17h02 de domingo, 2 minutos depois do horário em que as urnas deveriam ter fechado.

Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula e levado por ele ao STF, prorrogou a votação até as 19h em todo o país, atendendo a um pedido da coligação do presidente que chegou ao Supremo às 16h32, enquanto o mesmo pedido ainda esperava decisão no TSE e o Ministério Público Eleitoral acabara de opinar contra.

Quando a ordem chegou às seções, 1.225 urnas já estavam totalizadas e tribunais regionais avisavam que urna encerrada não reabre. Uma ordem que nasce impossível de cumprir serve mais ao contencioso do que ao eleitor.

Decisão do TSE é inédita no Brasil

Falo como analista e deixo a repercussão jurídica para os juristas. Em 2020, em plena pandemia, o TSE ampliou a votação em 1 hora e Barroso recusou passar das 17h, porque depois disso falta transporte e sobra violência. Em 2022, o PT pediu votação até as 19h por causa das blitze da PRF e Alexandre de Moraes negou. Desde a redemocratização, o horário nunca tinha sido esticado no próprio dia da eleição, depois do fechamento, por decisão monocrática de um ministro do Supremo com o pedido ainda na mesa do presidente da Justiça Eleitoral. O pedido de 2022 e o de 2026 eram o mesmo. Mudou o ministro, e com ele a resposta.

O episódio coroa uma sequência. O TSE anulou os 274.411 votos de Garotinho no Rio depois da apuração e transformou um segundo turno em vitória de Douglas Ruas no primeiro. No Paraná, Deltan Dallagnol teve campanha e fundos suspensos em setembro, a candidatura cassada na véspera da eleição e restabelecida na manhã de domingo pelo presidente do TSE, a tempo de receber 2,9 milhões de votos que o plenário ainda pode anular. Mendonça mandou apagar posts sobre Nossa Senhora Aparecida, Dino derrubou, Fux restabeleceu. Gilmar incluiu Renan Santos no debate da Globo a poucas horas do evento e a emissora cancelou tudo. Nunes Marques suspendeu o “Exército do Lula” e o corregedor do próprio TSE recolocou o canal no ar no mesmo dia.

Democracia vive de confiança, e confiança se perde em horas, como se viu neste domingo

O eleitor que já desconfiava de abuso de autoridade e de uso seletivo dos instrumentos recebeu, a queima-roupa, a prova de que a regra pode mudar com o jogo em andamento. Quem deveria ser o fiador da segurança produziu insegurança, e produziu para os 2 lados, porque o litígio sobre o resultado agora está armado para quem perder.

Se o Supremo vai decidir caso a caso o que compete à Justiça Eleitoral, perguntar para que ainda serve o TSE deixa de ser provocação e vira dúvida institucional. O preço dessa confusão pode ir muito além de uma noite de apuração atrasada. Com um resultado contestável na origem, o país corre o risco de um terceiro turno, jogado no Judiciário, nas ruas ou, no limite, de novo nas urnas.