Eleições 2026

Flávio ganha ou Lula vira? A resposta está em quem não foi votar

A virada existe no papel; para existir na urna, boa parte de quem não foi votar precisa mudar de ideia em 4 dias

flávio lula
Foto: Agência Brasil

Bastou a diferença encolher para a palavra virada voltar a circular, e ela circula com alguma razão. O Datafolha viu a vantagem de Flávio Bolsonaro nos votos válidos cair de 4 para 2 pontos em uma semana, e a Nexus de segunda-feira foi mais longe, com 50,3% a 49,7%, que a 6 dias da urna é empate técnico. Convém lembrar, antes de qualquer outra coisa, que o empate é da Nexus: AtlasIntel, Real Time Big Data e Meio/Ideia saíram nos mesmos dias com Flávio entre 2 e 4 pontos à frente. A aproximação é real, e a liderança, por enquanto, também.

O problema do placar de pesquisa é que ele esconde mais do que mostra. A pergunta que interessa é de onde saiu o voto que encurtou a distância, e a Nexus permite respondê-la porque cruza a intenção de agora com o que cada entrevistado fez no dia 4.

Não saiu do eleitor de Flávio, já que 98% dos que votaram nele dizem que vão repetir o voto. Tampouco saiu da terceira via, que caminha em bloco para o outro lado: entre os 9,3 milhões que escolheram Caiado, Zema, Renan Santos e Cury no primeiro turno, 50% declaram voto em Flávio e 32% em Lula, e entre os eleitores de Caiado a proporção chega a 68% contra 22%. O Datafolha mediu o mesmo grupo e encontrou a mesma direção.

Sobra um segmento, e um só: quem não foi votar. Foi ali que a pesquisa mudou de figura em 6 dias. Na rodada de 13 de outubro, Flávio tinha 49% e Lula 41% entre os abstencionistas do primeiro turno; na de segunda-feira, Lula aparece com 49% e Flávio com 44%. São 13 pontos de vantagem trocados de mão num único recorte, enquanto o restante do eleitorado permaneceu praticamente onde estava, e é esse movimento, e apenas ele, que produz o empate do placar.

Vale desconfiar um pouco. Subamostra carrega margem de erro bem maior do que os 2 pontos da pesquisa inteira, a Nexus não informa o tamanho desse grupo, e uma oscilação de 13 pontos numa semana diz tanto sobre a fragilidade do número quanto sobre o humor do eleitor. A Quaest, aliás, já lia esse segmento com Lula na frente desde o dia 14, sinal de que nem os institutos concordam sobre quem é esse eleitor ausente.

Flávio saiu do primeiro turno com 56,1 milhões de votos, 2,2 milhões à frente de Lula. Se os 9,3 milhões da terceira via forem distribuídos na proporção que os próprios eleitores declaram, cerca de 4,7 milhões vão para ele e 3 milhões para Lula, e a vantagem sobe para perto de 3,9 milhões. Com a proporção do Datafolha, um pouco mais generosa com o petista, fica em 3,5 milhões. Nos dois cálculos a diferença cresce. Contando apenas quem compareceu no dia 4, portanto, Flávio ampliou. O empate da pesquisa só existe quando entram na equação os 33,5 milhões de brasileiros que ficaram em casa, e depende inteiramente de um eleitor que até agora não apareceu.

E ele costuma aparecer? A experiência de 2022, numa eleição polarizada ao limite, responde que não: a abstenção foi de 20,95% no primeiro turno e de 20,59% no segundo, ou seja, quem faltou em outubro faltou de novo. Bolsonaro cortou 4 milhões de votos de desvantagem entre os dois turnos, mas fez isso com voto que já estava na urna, de quem tinha escolhido outro candidato ou mudou de lado, e não com eleitor novo. Em 2026 esse caminho está fechado para Lula, porque quem recebe a terceira via é justamente quem já lidera.

Soma-se a isso o histórico recente dos institutos. Na véspera do primeiro turno, todas as 9 pesquisas nacionais comparáveis subestimaram Flávio, em média 3 pontos, e o Datafolha, que cravou o voto de Lula, errou o dele em 5. Em 2022 o pai havia sido subestimado em 4,4. Ninguém pode garantir que o erro se repete no domingo, mas, quando a pesquisa aponta empate, o erro conhecido tem lado.

A campanha de Lula leu o mesmo dado e apostou nele, e a reta final é toda dirigida a quem faltou no dia 4. É uma aposta coerente com a pesquisa, e tem contra ela uma informação que a própria Nexus registra: a disposição de comparecer, de 86% no eleitorado geral, cai para 71% entre quem rejeita os dois candidatos. Em 21 estados, que somam 92% do eleitorado, não haverá segundo turno para governador, e quem não gosta de nenhum dos finalistas terá um único nome na urna e menos motivo ainda para sair de casa.

Pesquisa registra intenção, e urna registra presença. Dizer ao entrevistador que vota em Lula não custa nada, mas sair de casa no domingo custa, e 33,5 milhões de pessoas já decidiram uma vez que não valia a pena. A virada existe no papel. Para existir na urna, boa parte dessa gente precisa mudar de ideia em 4 dias, e até lá o número conta uma história diferente da percepção. Eu fico com o número.

*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.