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Quando a lei força a indústria a mudar a receita e por que os ultraprocessados são o real perigo

Imposto do açúcar pode estimular a indústria a reformular produtos e reduzir o consumo de ultraprocessados. Entenda os impactos na saúde.

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Diante do avanço acelerado da obesidade e das doenças crônicas, governos de todo o mundo tentam frear o consumo de alimentos industrializados nocivos. No Reino Unido, uma das iniciativas mais emblemáticas foi o Soft Drinks Industry Levy (SDIL), o imposto sobre bebidas açucaradas. 

Um estudo publicado na revista científica European Journal of Public Health, assinado pelo pesquisador Jayadeepthana Premaratnam, revelou que o maior mérito da medida não foi apenas fazer o consumidor pagar mais caro ou mudar bruscamente de hábito, mas obrigar a indústria a reformular suas receitas. Como a tributação aumentava de acordo com a concentração de açúcar — e foi dado um prazo prévio para a lei entrar em vigor —, as empresas reduziram rapidamente a quantidade de açúcar de seus produtos para fugir dos impostos, gerando uma queda substancial no consumo total de açúcar pela população.  

Os males dos ultraprocessados e o impacto na saúde 

A grande preocupação por trás de medidas como o imposto do açúcar é o consumo desenfreado de alimentos ultraprocessados (refrigerantes, salgadinhos de pacote, pratos congelados e embutidos). Formulados com alta adição de açúcares, gorduras hidrogenadas, sódio e aditivos químicos (corantes, aromatizantes e conservantes), esses produtos passam por processos industriais que alteram a estrutura do alimento, eliminando fibras e nutrientes vitais. 

O consumo frequente de ultraprocessados está diretamente associado a: 

  • Inflamação crônica e obesidade: Eles promovem alto ganho calórico sem gerar saciedade prolongada. 
  • Doenças Cardiovasculares e Diabetes Tipo 2: O excesso de glicose e sódio sobrecarrega o pâncreas, danifica vasos sanguíneos e eleva a pressão arterial. 
  • Alteração da Microbiota Intestinal: Os aditivos sintéticos prejudicam a flora intestinal, afetando desde a imunidade até a saúde mental. 

O cenário no Brasil e no Paraná 

No Brasil, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) indica que cerca de 20% das calorias diárias consumidas pelos brasileiros vêm de ultraprocessados. Contudo, dados do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Nupens) apontam que a Região Sul lidera o consumo nacional: no Paraná, a participação desses produtos na dieta chega a atingir mais de 26% das calorias diárias em diversos municípios. Além disso, relatórios da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA) mostram que mais de 35% das crianças paranaenses entre 5 e 10 anos já apresentam excesso de peso, um reflexo direto da presença precoce de bebidas adoçadas e embutidos na rotina alimentar. 

Com o debate sobre a Reforma Tributária no Brasil e a criação do “Imposto Seletivo” sobre itens nocivos à saúde, o Paraná — que possui um setor agroindustrial e de bebidas fortíssimo — está no centro dessa discussão. Políticas tributárias estratégicas podem servir como um poderoso incentivo para que a indústria local inove e reduza o teor de açúcares e aditivos, protegendo a saúde da população sem sufocar o setor produtivo. 

Dica Prática: Ao fazer compras, aplique a Regra dos 5 Ingredientes. Olhe a lista de ingredientes no rótulo (lembrando que eles vêm em ordem decrescente, do mais abundante para o menos abundante). Se a lista tiver mais de 5 itens ou contiver nomes que você não reconhece em uma cozinha comum (como glutamato monossódico, xarope de milho de alta frutose ou gordura vegetal interesterificada), trata-se de um ultraprocessado.  

Por que isso importa? Esses aditivos sintéticos enganam os receptores de saciedade do seu cérebro, fazendo você comer mais e sobrecarregando o seu metabolismo com substâncias altamente inflamatórias. 

Lu Oliveira | Doutora em Ciências da Saúde