Saúde em 1'
Mundo profissional
Com o avanço da automação e da Inteligência Artificial, nunca foi tão difícil encontrar abordagens humanas; talvez o problema nãos seja a tecnologia, mas como escolhemos utilizá-la
Há alguns dias me peguei pensando em como meu comportamento dentro do LinkedIn mudou no último ano. Não porque deixei de acreditar na plataforma, muito pelo contrário. Continuo enxergando o LinkedIn como o ambiente mais relevante para relacionamento profissional, geração de negócios, networking e compartilhamento de conhecimento. O problema é que a experiência de quem está do outro lado da tela mudou, e mudou para muito pior.
Hoje, abrir a caixa de mensagens da plataforma exige quase o mesmo filtro mental que abrir uma caixa de spam. Entre uma conexão realmente interessante e uma oportunidade legítima de relacionamento, existe uma enxurrada de abordagens comerciais padronizadas, promessas irreais e mensagens produzidas em escala, muitas delas claramente escritas por Inteligência Artificial e enviadas sem qualquer preocupação em entender quem está recebendo.
O LinkedIn continua crescendo e consolidando sua posição como uma das maiores redes profissionais do mundo. O que parece estar se perdendo é algo muito mais valioso do que a quantidade de perfis ativos: o seu propósito com as relações construídas dentro da plataforma.
Não existe problema algum em utilizar Inteligência Artificial para ganhar produtividade. Eu mesmo utilizo diariamente. Ela organiza ideias, acelera pesquisas, ajuda na estruturação de conteúdos e elimina tarefas repetitivas. O problema começa quando a ferramenta passa a substituir completamente o pensamento de quem a utiliza.
Hoje, qualquer executivo consegue identificar em poucos segundos uma mensagem produzida apenas para escalar contatos. A estrutura é semelhante. Primeiro vem uma tentativa de criar urgência. Depois, uma promessa extraordinária. Em seguida, a garantia de resultados acima da média. Tudo isso acompanhado de um convite para uma reunião de quinze minutos que, supostamente, mudará os rumos da empresa.
É curioso observar que, justamente na era em que mais se fala sobre personalização, parte do mercado resolveu apostar na padronização absoluta.
A Inteligência Artificial democratizou a produção de conteúdo, e isso é excelente. Mas também democratizou a produção de textos superficiais. O diferencial continua sendo exatamente o mesmo de antes: repertório, capacidade analítica, pensamento crítico e experiência prática. Nenhuma ferramenta entrega isso sozinha.
Existe uma distância enorme entre o que muitos profissionais comerciais acreditam que funciona e aquilo que realmente desperta interesse em quem ocupa posições de decisão.
Executivos não passam o dia esperando receber apresentações comerciais. A rotina de um gestor é composta por reuniões, indicadores, orçamento, pessoas, planejamento, conflitos, metas e decisões que impactam centenas ou milhares de pessoas. Tempo não é apenas um recurso escasso, tornou-se um ativo estratégico.
Por isso, toda abordagem começa muito antes da primeira mensagem.
Quando um profissional acredita que conseguirá conquistar a atenção de um decisor enviando exatamente o mesmo texto para centenas ou milhares de pessoas, ele demonstra desconhecer completamente a dinâmica de uma venda consultiva. Não se trata apenas de falta de personalização, mas também da ausência de respeito pelo tempo do outro.
Depois da conexão, começam os e-mails automáticos. Descobrem seu endereço no perfil profissional e iniciam uma sequência interminável de mensagens com títulos apelativos, senso artificial de urgência e promessas que dificilmente resistem a cinco minutos de uma conversa mais técnica.
A pergunta que sempre faço é simples e objetiva, se a proposta é tão boa quanto a mensagem afirma, por que ela precisa ser apresentada exatamente da mesma forma para milhares de empresas completamente diferentes?
Sempre que recebo uma abordagem comercial, faço um movimento simples antes de responder: procuro conhecer quem está falando comigo. Visito o perfil da empresa, analiso seu conteúdo, busco cases e tento entender qual autoridade ela construiu no mercado.
O problema é que, muitas vezes, encontro uma incoerência evidente. Empresas que prometem posicionamento estratégico sem produzir conteúdo relevante, consultorias que falam sobre autoridade sem demonstrá-la e marcas que oferecem crescimento enquanto mantêm uma presença digital praticamente inexistente.
Isso leva a reflexão que, se uma organização não consegue comunicar valor sobre si mesma, por que eu acreditaria que conseguirá comunicar o valor da minha empresa?
Relacionamentos profissionais não começam na caixa de mensagens. Eles começam na reputação construída ao longo do tempo. A abordagem comercial deveria ser a consequência desse trabalho, nunca o seu ponto de partida.
Costuma-se dizer que a tecnologia aproxima pessoas, e eu concordo. No entanto, ela também potencializa comportamentos. Profissionais que já estudavam o mercado continuarão utilizando a tecnologia para aprofundar suas análises, produzir conhecimento e fortalecer relacionamentos. Da mesma forma, aqueles que sempre privilegiaram atalhos tendem a automatizar justamente aquilo que nunca deveria ser automatizado: o ato de pensar.
O problema não está na IA, mas na forma como ela vem sendo utilizada por parte do mercado. Quando pesquisar deixa de ser uma etapa do processo, compreender o contexto do cliente passa a ser considerado perda de tempo e conhecer o negócio do outro deixa de ser uma prioridade, a tecnologia deixa de ampliar a inteligência e passa apenas a escalar a superficialidade.
É nesse cenário que surgem os discursos prontos, as promessas milagrosas e soluções genéricas para problemas completamente distintos. Empresas sólidas não são construídas dessa maneira, assim como relacionamentos duradouros e vendas verdadeiramente consultivas jamais nascerão de abordagens que ignoram contexto, credibilidade e geração de valor.
Ainda acredito profundamente no potencial da plataforma. Talvez, justamente por isso seja tão crítico em relação ao rumo que parte do mercado está tomando.
O LinkedIn continua sendo um dos poucos ambientes digitais onde executivos, empresários, especialistas e profissionais de diferentes segmentos compartilham conhecimento de forma aberta. Continua sendo um espaço privilegiado para aprender, construir reputação, desenvolver networking e gerar oportunidades reais de negócio. Mas isso exige maturidade.
Exige compreender que autoridade não nasce de mensagens automáticas, nem de textos produzidos exclusivamente por Inteligência Artificial.
Nasce da capacidade de contribuir para o mercado antes de tentar vender para ele.
Talvez este seja o maior desafio dos próximos anos. Em um mundo onde todos terão acesso às mesmas ferramentas, vencerão aqueles que conseguem preservar aquilo que nenhuma tecnologia consegue automatizar, o pensamento crítico, credibilidade, repertório e relações genuínas.
No fim das contas, executivos não procuram milagres. Procuram parceiros que compreendam seus desafios, tragam argumentos consistentes e agreguem valor antes mesmo da primeira proposta comercial.
E essa continua sendo uma habilidade profundamente humana.
*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.
CONTEÚDOS RELACIONADOS