Musculação
Saúde em 1º
A forma como o Brasil enxerga o envelhecimento feminino acaba de ganhar um novo marco
Publicado em 31 de março de 2026, o novo Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, elaborado pelo Ministério da Saúde com o apoio técnico da Fiocruz, traz uma mudança crucial de paradigma: a menopausa deixa de ser tratada sob a ótica da “doença” ou da “falência hormonal” para ser acolhida como uma etapa natural, biológica e integral da vida da mulher.
Na prática, o documento orienta que os profissionais de saúde — especialmente na Atenção Primária (SUS) — olhem para além dos famosos “fogachos” (as ondas de calor). O foco agora é a saúde global, englobando o bem-estar emocional, a vida sexual, o contexto social e a autonomia da mulher.
Para entender o impacto prático dessas atualizações na rotina das brasileiras, conversei com o Dr. Ricardo Barone, ginecologista especialista em reposição hormonal e saúde da mulher. Veja os principais trechos da entrevista a seguir:
Lu Oliveira: Dr. Ricardo, qual é o maior ganho desse novo manual de 2026 para as mulheres que estão vivendo a transição menopausal ou a menopausa hoje?
Dr. Ricardo Barone: Eu vejo isso como uma evolução, já que a mulher 40+ precisa ser vista com olhos diferentes do que se via no passado. Devemos pensar na saúde da mulher como um todo. Como as mudanças hormonais levam a alterações metabólicas muito grandes, o cuidado precisa ser global. Um ponto crucial é o controle nutricional, pois observamos um número muito grande de mulheres obesas nessa faixa etária, o que deve ser tratado com muita seriedade, já que a obesidade geralmente acompanha essa fase devido às mudanças metabólicas. Por isso, é fundamental ter um programa de controle e reeducação alimentar para essas pacientes. Outro fator importante é a mudança na atividade física. Vemos um índice elevado de sedentarismo nessa população, então deveríamos dar um foco muito grande aos exercícios, principalmente os musculares, já que a mulher não pode envelhecer sarcopênica — ou seja, com perda de massa muscular. O foco é a saúde global: alimentação, atividade física, melhora na qualidade de vida, otimização dos hábitos, qualidade do sono e, quando cabível, a terapia hormonal.
Lu Oliveira: O manual dá um peso muito grande às medidas não medicamentosas. Como pequenas mudanças no dia a dia ajudam a aliviar sintomas que parecem tão difíceis, como a insônia e os fogachos?
Dr. Ricardo Barone: É preciso observar que é muito comum a mulher na transição menopausal e na menopausa procurar outros especialistas por sintomas que ela não sabe que são decorrentes dessa fase. Muitas vezes, ela vai ao psiquiatra porque está deprimida; ao neurologista devido a alterações no sono; ao endocrinologista pelo ganho de peso; ao reumatologista por dores articulares; ou ao urologista por infecções urinárias de repetição. Cada um desses profissionais vai medicar a paciente com relação ao sintoma específico, sem relacionar que todas essas queixas podem ter uma única causa de origem: a menopausa. Se realizarmos o tratamento adequado da menopausa, com certeza minimizaremos o uso de medicamentos para sintomas que são desdobramentos dela. Afinal, as alterações neurológicas, psiquiátricas, endocrinológicas, reumatológicas, cutâneas, dentárias, urológicas e, claro, ginecológicas, decorrem da deficiência hormonal. Ao adotar a terapia hormonal adequada — associada, logicamente, às outras medidas de estilo de vida que já citamos —, essa mulher reduzirá significativamente a necessidade de múltiplos remédios.
Lu Oliveira: Quanto à Terapia de Reposição Hormonal, como o cenário atual se alinha a essas novas diretrizes?
Dr. Ricardo Barone: Devemos considerar que as grandes causas de mortalidade em mulheres idosas no mundo — como as doenças cardiovasculares, as complicações relacionadas à osteoporose, as doenças neurológicas, o Alzheimer e os AVCs — em grande parte acontecem devido ao envelhecimento provocado pela deficiência estrogênica. Por isso, a terapia hormonal realizada precocemente, respeitando a chamada janela de oportunidade (ou seja, no momento em que se identifica a deficiência hormonal), deve ser incentivada. Ela vai proporcionar à mulher uma qualidade de vida muito superior no futuro. Assim, ela não sentirá o impacto abrupto que muitas mulheres enfrentam nessa fase e, principalmente, estará protegida das principais causas de mortalidade e da perda de autonomia na vida futura.
No dia a dia das clínicas e postos de saúde, o novo manual propõe o fim do atendimento de “cinco minutos”. Se uma mulher chega queixando-se de irritabilidade crônica ou falta de libido, a conduta ideal proposta em 2026 não é apenas receitar um antidepressivo ou dizer que “é da idade”.
As recomendações de 2026 alinham o Brasil às diretrizes internacionais mais recentes, como as da The Menopause Society (antiga NAMS). Os estudos atuais reforçam que o declínio estrogênico afeta o sistema nervoso central, o metabolismo lipídico e a densidade óssea. Tratar essa fase com seriedade — combinando a medicina integrativa, hábitos saudáveis e, quando necessário, a terapia hormonal segura — reduz custos públicos com fraturas de fêmur (decorrentes da osteoporose) e eventos cardiovasculares no futuro.
A mensagem final do Ministério da Saúde e dos especialistas é única: a menopausa é um processo inevitável, mas o sofrimento não é. Com informação de qualidade, acolhimento profissional e as escolhas certas no cotidiano, é perfeitamente possível envelhecer com máxima saúde, energia e vitalidade.
*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.
CONTEÚDOS RELACIONADOS