Saúde em 1'

O futebol brasileiro e o limite humano: a ciência explica o colapso do calendário

Dr. Antonio Carlos Gomes, que já treinou Ronaldo Fenômeno, explica por que nossos jogadores “estouram” enquanto a Copa voa

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Foto: Pexels

A Copa do Mundo de 2026 está terminando e, nos últimos dias, o planeta parou para assistir ao ápice do futebol: atletas correndo mais de 12 km por jogo, intensidade máxima e o topo da performance humana. O jogador mais rápido registrado na Copa do Mundo de 2026 até o momento é o defensor australiano Jordan Bos, que atingiu a impressionante marca de 36,7 km/h. O lateral-esquerdo de 23 anos estabeleceu esse recorde logo no início do torneio, durante a vitória da Austrália por 2 a 0 contra a Turquia. O pico de velocidade surpreendeu o público, superando os velocistas mais badalados do planeta.

Mas enquanto o torneio da FIFA se despede, o futebol brasileiro volta à sua realidade nua e crua, onde a principal manchete quase sempre é o Departamento Médico lotado.

Basta ligar a TV para ouvir a mesma narrativa dos técnicos por aqui: “O calendário é desumano, os jogadores estão estourando”. Mas qual a diferença entre o nível físico da Copa e o colapso do nosso calendário?

Para entender o real impacto biológico dessa rotina, conversamos com o Professor Dr. Antonio Carlos Gomes, uma das maiores autoridades do país em fisiologia e metodologia do treino esportivo. A conclusão é direta: o futebol atingiu um teto onde a tecnologia tenta, desesperadamente, driblar as leis do corpo humano.

1. O músculo não tem tempo de “recarregar”

Na Copa, as seleções tiveram tempo de preparação e intervalos maiores. No futebol brasileiro, o buraco é mais embaixo.

Dr. Antonio Carlos Gomes: O grande problema não é apenas o músculo dolorido, é o tempo de recuperação dos estoques de energia (o glicogênio muscular). Para o corpo se reestruturar após o estresse de uma partida de alta intensidade, ele precisa de tempo e repouso. Quando você joga a cada três dias, acumulando viagens longas e noites ruins de sono, o atleta entra em um estado de fadiga residual crônica. O músculo não volta ao normal e o resultado inevitável é a lesão.

2. O cérebro cansa antes do corpo (e o músculo rasga sozinho)

Você já reparou quantas lesões graves acontecem no Brasil sem que nenhum adversário encoste no jogador? O Dr. Antonio Carlos explica que a culpa é da mente esgotada.

Dr. Antonio Carlos Gomes: Existe a fadiga do sistema nervoso central. Quando o cérebro está esgotado pelo estresse mental e pela falta de sono regenerativo, os reflexos diminuem e a coordenação motora fina falha. O jogador perde o tempo da passada por milissegundos. É aí que o músculo sofre um estiramento sozinho. Não é azar, é física e biologia.

3. A tecnologia avisa, mas a pressão ignora

Lu Oliveira: Hoje, os clubes usam coletes com GPS, exames de termografia e exames de sangue para medir o desgaste antes de entrar em campo. Por que então eles continuam se machucando?

Dr. Antonio Carlos Gomes: A tecnologia é fantástica, mas ela não faz milagres. Ela avisa que o atleta está na ‘zona de risco’. O problema é que, no futebol de elite, a pressão pelo resultado faz com que os clubes assumam o risco. O treinador sabe que o jogador está fadigado pelas métricas, mas precisa dele em campo em uma decisão. A tecnologia mapeia o perigo, mas ela não anula o calendário.

O Veredito: O descanso é o novo treino

Enquanto os campeões do mundo sobem ao pódio com o ápice da preparação física, clubes de futebol brasileiro precisam entender que a única saída para manter o espetáculo por aqui é mudar a mentalidade fora das quatro linhas.

Para o Dr. Antonio Carlos Gomes, o futebol moderno exige elencos equilibrados e coragem para poupar. “Não existe mais espaço para treinos longos e desgastantes no meio da temporada. O treino vira pura recuperação ativa. Quem gerencia melhor o elenco e aceita rodar o time, no longo prazo, chega mais inteiro. O repouso hoje faz parte do treino”, finaliza.

*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.