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Saúde em 1'
O descarte inadequado de óleo de cozinha, medicamentos e resíduos plásticos pode comprometer a qualidade da água e afetar o meio ambiente e a saúde.
Quando o assunto é bem-estar, nossa atenção costuma ser atraída pelo que é tangível e imediato. Conferimos a validade de um chocolate no supermercado, cheiramos a carne para garantir que está fresca ou evitamos consumir uma fruta passada. No entanto, raramente voltamos o nosso olhar para o recurso mais elementar da nossa existência: a água.
Composta por aproximadamente 60% do nosso organismo, a água é o motor invisível da nossa saúde. Mas até que ponto estamos cuidando daquilo que nos mantém vivos? O professor e mestre em sustentabilidade, Wellington Devechi, nos convida a repensar essa miopia cotidiana logo de entrada.
Como aponta o especialista, a sustentabilidade está diretamente ligada à nossa saúde: nos preocupamos com o prazo de validade dos alimentos no dia a dia, mas acabamos poluindo, sem perceber, o recurso mais essencial para a nossa sobrevivência.
O grande equívoco coletivo é acreditar que o saneamento básico faz mágica com tudo o que despacha pelo ralo. Hábitos corriqueiros — como o descarte inadequado de óleo de cozinha — geram impactos de proporções alarmantes. Dados ambientais apontam que apenas um litro de óleo pode contaminar milhares de litros de água, criando barreiras que sufocam os ecossistemas. Esse é um ciclo de destruição que se retroalimenta dentro das nossas próprias casas.
“Quando você joga o óleo de cozinha na pia, ele vai parar nos rios e vai formar uma película que impede a troca de gases entre a água e o ar. Quem aí nunca teve a sua pia entupida, não é mesmo? Neste momento você corre lá, joga a famosa soda cáustica para tentar limpar todo o encanamento, porém este material vai parar nos rios, desequilibrando totalmente o pH da água, sem contar que danifica muito a vida aquática e essa água vai dar muito trabalho para ser limpa novamente e poder retornar para o consumo”, destaca Devechi.
Outro erro frequente é o descarte de sobras de medicamentos e remédios vencidos diretamente no vaso sanitário ou na pia. Compostos farmacêuticos e resíduos químicos passam por estações de tratamento convencionais sem a filtragem adequada, retornando aos mananciais e afetando a fauna e a flora.
Mesmo quem adota o hábito de consumir exclusivamente água mineral engarrafada esquece que a contaminação sistêmica nos alcança por outras vias, conforme reforça o professor:
“Lu, e esse é muito comum. Quem aí já jogou o restinho daquele medicamento ou um medicamento já vencido na sua pia ou no vaso sanitário? Pois bem, vai afetar a vida aquática. Isto é muito preocupante. E aí você pode estar pensando assim, ah, eu não tenho nada a ver com isso porque eu só tomo água comprada de qualidade. Tá bom, e na hora que você vai tomar o seu banho? Escovar os seus dentes, lavar os seus alimentos. Tá vendo? Temos sim que nos preocupar com a qualidade da nossa água.”
Para além das nossas torneiras, o problema ganhou escala microscópica e global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e fóruns científicos globais alertam para a onipresença dos microplásticos — partículas de até 5 milímetros provenientes da degradação de plásticos, que já são encontradas em rios, oceanos, chuvas e até no organismo humano.
Encarar esse cenário exige alinhar nossas práticas aos compromissos internacionais, como a Agenda 2030 da ONU, em especial a ODS 6 (Água Potável e Saneamento) e a ODS 14 (Vida na Água), que buscam mitigar a poluição hídrica e proteger os ecossistemas aquáticos.
Como bem provocou o professor, a sustentabilidade não é um conceito abstrato: ela é, em sua essência, a garantia da nossa própria qualidade de vida.
Fica o questionamento para vocês, leitores do portal massa.com.br: depois de olhar de perto para o seu encanamento e para os rios, a sustentabilidade tem ou não tem a ver com a sua saúde? Deixe sua opinião nos comentários e até o próximo minuto!
Lu Oliveira | Doutora em Ciências da Saúde