Musculação
Marketing com propósito
O comprador moderno busca por estilo de vida em um imóvel, e o futebol pode ser o elo para essa conexão
Em períodos de grandes jogos, o Brasil muda de ritmo. As conversas mudam, os encontros aumentam, as famílias se organizam, os amigos combinam onde assistir, os condomínios ganham movimento e até quem não acompanha futebol acaba entrando no clima.
O futebol atravessa a casa, o trabalho, a escola, os bares, os shoppings, os grupos de WhatsApp, o Instagram, o TikTok, os portais de notícia e, claro, os veículos de comunicação. A própria Massa, com suas diversas plataformas de mídia, também reflete esse movimento, quando os jogos viram pauta, os personagens ganham destaque, os vídeos repercutem e o assunto chega rapidamente ao cotidiano das pessoas.
Diante disso, surge uma provocação para o mercado imobiliário: as empresas estão realmente entendendo esse comportamento ou apenas colocando uma bola na arte e chamando isso de campanha?
Existe uma diferença enorme entre usar o futebol como decoração e usar o futebol como estratégia. O esporte não deveria ser visto apenas como um tema promocional. Ele deve ser lido como um fenômeno de convivência.
Durante os jogos, as pessoas recebem amigos, usam a churrasqueira, ocupam o salão de festas, reúnem-se na sacada, assistem no espaço gourmet, descem para o clube do condomínio, encontram vizinhos nas áreas comuns e criam memórias em família.
Ou seja, o futebol mostra, na prática, o que muitas campanhas imobiliárias tentam explicar no discurso. Que o imóvel não é apenas metragem, localização e acabamento. Ele também é cenário de interação, encontro e vivência.
Essa é uma grande oportunidade para imobiliárias, construtoras e incorporadoras. Não se trata simplesmente de aproveitar o assunto do momento, mas de entender o comportamento que ele revela. Quando uma família se reúne para assistir a um jogo, quando adolescentes combinam de ver a partida no salão, quando crianças trocam figurinhas e quando amigos se encontram para um churrasco, o imóvel deixa de ser apenas endereço. E essa leitura é muito mais poderosa do que qualquer promoção genérica.
Sabemos que o comprador de imóvel não decide por impulso. Ele não compra apenas porque viu uma arte bonita ou recebeu uma mensagem temática. A decisão envolve renda, crédito, localização, segurança, projeto de vida, expectativa de futuro e percepção de valor. Por isso, campanhas rasas dificilmente sustentam uma escolha tão importante.
A pergunta correta não é apenas como usar o futebol para vender mais, mas, de como esse momento ajuda o cliente a imaginar a vida que ele pode ter naquele imóvel.
Para uma imobiliária, o período pode ser usado para organizar uma curadoria inteligente de oportunidades. Em vez de apenas postar uma arte comemorativa, pode apresentar uma seleção de imóveis com sacada gourmet, casas com espaço para receber, apartamentos próximos a serviços, condomínios com lazer completo ou empreendimentos prontos para morar.
Para uma construtora ou incorporadora, o caminho pode ser transformar o plantão de vendas em experiência. Jogos transmitidos no decorado, ações com corretores, visitas temáticas, ambientação das áreas comuns, eventos de relacionamento e conteúdos nas redes sociais podem aproximar o cliente do produto de uma forma mais natural.
Mas tudo isso precisa ter propósito. Não basta somente decorar o plantão de vendas. É preciso mostrar como aquele empreendimento funciona na vida real. Por exemplo, muitos diferenciais que aparecem no material de vendas ainda são tratados como uma lista técnica, tais como sacada, churrasqueira, espaço gourmet, salão de festas, piscina, praça, lounge, rooftop, sports bar, brinquedoteca e áreas comuns. Mas, quando bem comunicados, esses itens deixam de ser apenas estrutura física e passam a representar rotina, encontro, lazer, bem-estar e pertencimento.
É aí que o futebol pode ajudar. Ele cria uma situação concreta para mostrar esses espaços em uso. A sacada se transforma no lugar onde a família se reúne. A churrasqueira deixa de ser apenas um diferencial e vira o centro de um encontro. O salão de festas deixa de ser apenas item de condomínio e passa a ser espaço de convivência. A área comum deixa de ser metragem compartilhada e vira experiência. O comprador atual não olha apenas para metragem, vaga, acabamento e localização. Tudo isso continua importante, porém, há um questionamento do cliente sobre como será o tipo de vida que ele terá naquele endereço. Essa questão deveria estar no centro das campanhas.
O futebol também tem uma força especial porque envolve diferentes gerações. As crianças entram pelo álbum de figurinhas, pelas camisas, pelos ídolos e pelos vídeos. Os adolescentes participam pelas redes sociais, pelos memes, pelos cortes e pelas conversas em grupo. Os adultos organizam a casa, o churrasco, o encontro, o plantão, a ida ao bar ou a reunião no condomínio.
Esse movimento cria memória afetiva. Muita gente lembra onde assistiu a determinados jogos, com quem estava, em que casa se reuniu, qual era a idade dos filhos, que amigos estavam presentes ou qual condomínio organizou a transmissão.
Por isso, quando uma empresa pensa em campanhas ligadas ao futebol, não deveria olhar apenas para o comprador individual. É preciso olhar para a família, para os filhos, para os amigos e para o ambiente de convivência que aquele imóvel proporciona.
Algumas empresas do setor já começam a perceber esse potencial. Há campanhas que usam o futebol para engajar corretores, criar rankings comerciais, destacar produtos, organizar uma seleção de imóveis, ativar leads parados e movimentar plantões de venda. São ações interessantes porque mostram que o tema pode ir além do brinde ou da peça comemorativa.
Uma campanha fraca usa o futebol como decoração e uma campanha inteligente transforma o futebol em narrativa comercial. Para o comprador final, é possível falar de família, convivência, casa própria e qualidade de vida. Para o investidor, pode tratar de oportunidade, timing e escolha de ativos. Para os corretores, pode gerar engajamento, competição saudável e foco em produtos estratégicos. Para leads parados, pode ser um bom motivo para retomar uma conversa.
Do lado das empresas é preciso cuidado jurídico. Elas podem aproveitar o clima do futebol, da torcida e dos grandes jogos, mas devem evitar o uso indevido de marcas, nomes, símbolos e expressões protegidas. Termos oficiais ligados à competição, logotipos, mascotes, troféus ou qualquer comunicação que sugira patrocínio, parceria ou autorização precisam ser tratados com cautela quando a empresa não tem direito de uso. O caminho mais seguro é trabalhar com conceitos genéricos e criativos, como futebol, torcida, seleção de imóveis, jogo decisivo, escalação de oportunidades, time de corretores, plantão em clima de campeonato e grandes momentos em casa.
Enfim, os grandes jogos podem ser uma excelente oportunidade para gerar atenção, ativar clientes, engajar corretores e mostrar melhor os diferenciais dos empreendimentos. Mas, sempre com inteligência e estratégia.
*A opinião do colunista não reflete necessariamente a opinião do portal.
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