Saúde em 1'
Marketing
Compreender o negócio, tomar decisões estratégicas e enxergar oportunidades únicas continua sendo o maior diferencial no marketing
Existe uma cena em Top Gun: Maverick (2022, dir. Joseph Kosinski) que me fez refletir muito sobre o momento que o marketing vive. Ao assumir a missão de treinar uma nova geração de pilotos, Maverick lembra que todos dominam o manual do F/A-18. Cada procedimento, cada limite da aeronave, cada sistema de combate está documentado. Os pilotos americanos conhecem e o inimigo também.
Em uma guerra, a tecnologia rapidamente deixa de ser diferencial. Quando dois exércitos possuem aviões capazes de voar na mesma velocidade, lançar os mesmos armamentos e operar sistemas semelhantes, a batalha deixa de ser entre máquinas: ela passa a ser entre pessoas. A guerra é vencida pelo piloto.
Durante muito tempo, acreditamos que a vantagem competitiva no marketing estava na tecnologia. Quem tivesse a melhor agência, a plataforma mais avançada ou acesso às ferramentas mais inovadoras estaria sempre um passo à frente da concorrência. Existe uma corrida constante para descobrir o próximo software, a próxima tendência ou a próxima solução capaz de gerar uma vantagem competitiva sobre o mercado.
Mas, assim como Maverick ensina aos seus pilotos, chega um momento em que a tecnologia deixa de ser o fator decisivo. Em uma guerra, quando ambos os lados dominam o mesmo caça, conhecem seus limites, sua capacidade de manobra e seu poder de fogo, o combate deixa de ser uma disputa entre máquinas e passa a ser uma disputa entre pessoas.
No marketing, vivemos exatamente esse momento: Google, Meta Ads, plataformas de CRM, automação, Business Intelligence e, mais recentemente, a inteligência artificial, tornaram-se acessíveis a empresas de todos os tamanhos. O concorrente utiliza as mesmas ferramentas, acompanha as mesmas tendências, participa dos mesmos eventos e consome praticamente o mesmo conhecimento.
Assim como na guerra retratada em Top Gun: Maverick, todos têm acesso ao mesmo “caça”. A tecnologia deixou de ser um privilégio e passou a ser um requisito básico. O verdadeiro diferencial não está mais na aeronave, mas em quem está na cabine, interpretando o cenário, tomando decisões sob pressão e transformando recursos comuns em resultados extraordinários.
Imagine dois pilotos entrando em combate. Ambos passaram pelo mesmo treinamento, conhecem profundamente a aeronave que pilotam e dominam cada detalhe do manual. Sabem sua velocidade máxima, a autonomia de voo, o alcance dos mísseis, os limites da estrutura e a capacidade de manobra em diferentes situações. Em teoria, estão em igualdade de condições.
Mas guerras nunca são vencidas apenas porque alguém conhece o equipamento. Elas são vencidas pela capacidade de interpretar o ambiente, antecipar os movimentos do adversário e tomar decisões quando o plano original deixa de funcionar.
No mercado acontece exatamente a mesma coisa. O seu concorrente conhece as mesmas estratégias de mídia, anuncia no Google, investe em redes sociais, utiliza inteligência artificial para criar conteúdos, acompanha indicadores de desempenho e participa dos mesmos eventos e cursos que você. O acesso ao conhecimento e às ferramentas tornou-se democrático.
Se todos estudam o mesmo manual e pilotam aeronaves semelhantes, por que algumas empresas continuam conquistando resultados muito superiores? A resposta é simples: porque o manual nunca foi suficiente. O que realmente faz a diferença é a capacidade do profissional de transformar conhecimento técnico em estratégia, interpretar o mercado com uma visão mais ampla e tomar decisões que o concorrente, mesmo utilizando as mesmas ferramentas, não consegue enxergar.
Em combate, um piloto não vence simplesmente porque decorou procedimentos ou conhece cada página do manual da aeronave. Isso é apenas o ponto de partida. O que realmente faz a diferença é sua capacidade de interpretar o ambiente, compreender a posição do adversário, calcular riscos, antecipar movimentos e tomar decisões em frações de segundo.
Em uma missão, o planejamento é importante, mas nem sempre sobrevive ao primeiro contato com o inimigo. É nesse momento que entram a experiência, o pensamento estratégico e a capacidade de adaptação. O piloto precisa ler o cenário em tempo real e agir com inteligência diante de circunstâncias que nenhum manual é capaz de prever.
No marketing, essa realidade é muito semelhante. O mercado está repleto de profissionais que dominam plataformas, conhecem métricas, configuram campanhas e operam ferramentas com excelência. No entanto, há uma carência cada vez maior de estrategistas capazes de interpretar o mercado, compreender o comportamento do consumidor, antecipar movimentos da concorrência e conectar o marketing aos objetivos do negócio.
Saber operar uma plataforma é importante, mas é apenas o equivalente a conhecer o painel da aeronave. O verdadeiro diferencial está na capacidade de transformar dados em decisões, ferramentas em estratégia e campanhas em resultados sustentáveis. Afinal, apertar botões qualquer profissional pode aprender; interpretar o campo de batalha continua sendo uma competência reservada aos melhores pilotos.
Nenhum piloto entra em uma missão de combate conhecendo apenas o painel da aeronave. Dominar os comandos do avião é uma obrigação, não um diferencial. Antes mesmo da decolagem, ele precisa compreender o objetivo da missão, estudar o terreno, analisar informações de inteligência, avaliar os recursos disponíveis, calcular o consumo de combustível, definir rotas alternativas e antecipar as possíveis ações do inimigo.
Em um cenário de guerra, a aeronave é apenas uma das variáveis da equação. A vitória depende da capacidade de conectar todas essas informações e tomar decisões estratégicas ao longo da missão.
No marketing acontece exatamente a mesma coisa. O profissional que conhece apenas Meta Ads ou Google Ads domina, no máximo, o painel da aeronave. Ele sabe configurar campanhas, analisar métricas e otimizar investimentos, mas isso representa apenas uma parte da operação.
O verdadeiro estrategista vai além. Ele compreende margem de contribuição, operação, planejamento, supply chain, desempenho comercial, comportamento do consumidor, experiência do cliente e estratégia empresarial. Em outras palavras, ele deixa de enxergar apenas o painel e passa a enxergar todo o campo de batalha.
Essa é a essência da visão mercadológica. É entender que uma campanha pode ser tecnicamente impecável e, ainda assim, não gerar resultados para o negócio. Talvez o estoque não seja suficiente para atender à demanda criada. Talvez a operação não consiga sustentar o crescimento das vendas. Talvez o produto promovido tenha baixa rentabilidade ou a estratégia comercial esteja direcionando esforços para outro objetivo.
Quando o profissional de marketing desenvolve essa visão sistêmica, ele deixa de medir o sucesso apenas por cliques, impressões ou leads gerados. Passa a avaliar o impacto real de suas decisões sobre a competitividade, a rentabilidade e o crescimento da empresa. Nesse momento, o marketing deixa de ser apenas comunicação e conquista seu verdadeiro papel que é ser parte principal da estratégia do negócio.
A história das guerras ensina uma lição que permanece atual e não vejo que vai morrer um dia: a tecnologia é importante, mas nunca vence sozinha. Os grandes comandantes sempre souberam que estratégia supera a força bruta e que as melhores decisões costumam prevalecer sobre os melhores equipamentos.
No mercado acontece exatamente o mesmo. Uma empresa pode investir milhões em mídia, adotar a inteligência artificial mais avançada ou operar as ferramentas mais sofisticadas e, ainda assim, ser superada por quem compreende melhor o negócio e toma decisões mais inteligentes. Afinal, a estratégia não está no software, mas na capacidade de quem o utiliza para interpretar cenários e transformar informação em vantagem competitiva.
A tecnologia continuará evoluindo. A inteligência artificial se tornará mais sofisticada, as plataformas ganharão novas capacidades e as automações executarão, em segundos, tarefas que hoje consomem horas de trabalho. Assim como acontece na aviação militar, o “avião” continuará evoluindo para todos. O acesso às melhores ferramentas deixará de ser um diferencial e passará a ser apenas o ponto de partida.
É por isso que o mercado não precisa mais de operadores de plataforma, tampouco de operadores de inteligência artificial. Precisa de pilotos: profissionais capazes de compreender o negócio antes de dominar as ferramentas. Afinal, a inteligência artificial pode escrever textos, analisar dados, criar imagens e sugerir campanhas, mas ela não assume riscos, não interpreta a cultura organizacional, não compreende os conflitos entre áreas nem decide qual batalha vale a pena ser travada. Essas continuam sendo decisões humanas.
Essa é a essência da visão mercadológica. Transformar profissionais de marketing em estrategistas de negócios, capazes de utilizar a tecnologia como um meio, e não como um fim. Porque, no final, o manual continuará sendo o mesmo. O avião também. Na guerra dos negócios, quem continuará fazendo a diferença será o piloto.
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