SAÚDE EM 1’

Quem manda na saúde? O caso da gigante Philip Morris

O embate entre o Estado e a indústria do tabaco.

tabagismo

Até onde vai a autonomia de um governo para proteger a saúde de sua população quando essa decisão ameaça os lucros de uma grande corporação multinacional? Essa é a reflexão central do estudo assinado pelo pesquisador Diego Fernando Garcia, publicado na renomada revista científica European Journal of Public Health.

O estudo detalha o histórico caso do Uruguai, que entre 2005 e 2016 aplicou uma das legislações de controle do tabagismo mais rígidas do planeta incluindo avisos ilustrados gigantes nas embalagens e a proibição de variações de marcas (como Light ou Blue). Em resposta, a gigante Philip Morris acionou o país em tribunais internacionais de arbitragem comercial, alegando invasão de direitos de propriedade intelectual e marcas registradas. A pesquisa reforça que defender a saúde coletiva é um dever moral e constitucional do Estado, desafiando a tentativa das corporações de transformar a saúde pública em mera “escolha individual” do consumidor.

Os males do tabagismo e o uso de nicotina

O tabagismo continua sendo uma das principais causas de mortes evitáveis no mundo. A fumaça do cigarro e os produtos derivados do tabaco contêm mais de 4.000 substâncias tóxicas e dezenas de agentes comprovadamente cancerígenos.

O consumo frequente desencadeia:

  • Cânceres diversos: É responsável por mais de 70% dos casos de câncer de pulmão, além de afetar boca, garganta, esôfago e bexiga.
  • Doenças Cardiovasculares: A nicotina e o monóxido de carbono danificam as artérias, aceleram o enrijecimento dos vasos e aumentam drasticamente os riscos de infarto e AVC.
  • Nova Ameaça (Vapes e Dispositivos Eletrônicos): A falsa sensação de segurança dos cigarros eletrônicos atrai jovens, causando lesões pulmonares graves (EVALI) e dependência de nicotina em prazos ainda mais curtos.

O cenário no Brasil e no Paraná: O dilema entre saúde e economia

O Brasil é reconhecido mundialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um modelo no combate ao tabagismo. No entanto, o estado do Paraná vivencia uma dualidade marcante:

  1. A Saúde da População: Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE) divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA-PR), cerca de 14,6% dos adultos paranaenses consomem derivados do tabaco — índice superior à média nacional (que gira em torno de 12,6%). Além disso, a SESA alerta para o crescimento preocupante da experimentação de narguilés e vapes entre jovens no estado.
  2. O Impacto Econômico: O Paraná é o 3º maior produtor de fumo do Brasil. Segundo a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e a FAEP, o setor envolve mais de 27 mil famílias de agricultores familiares no estado (com forte concentração na região de Irati, Sul e Centro-Sul), movimentando bilhões de reais na economia agrícola.

Esse cenário evidencia a complexidade da gestão pública: enquanto o Estado precisa agir com firmeza para reduzir os custos com internações no SUS causadas pelo fumo, precisa também criar políticas de diversificação agrícola sustentável para que as famílias do campo não fiquem reféns do cultivo do tabaco.

Dica Prática

Dica Prática: Desative os “Gatilhos Sociais e Ambientais” e busque o Programa do SUS. Se você ou alguém próximo quer parar de fumar (ou largar o vape), não confie apenas na “força de vontade”. O hábito de fumar é ativado por gatilhos do ambiente (como o café após o almoço, o consumo de álcool ou momentos de estresse).

Por que isso importa? O cérebro associa esses momentos a uma descarga rápida de dopamina fornecida pela nicotina. Mudar a rotina nesses horários interrompe o circuito do vício. No Paraná, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) oferecem o Programa Estadual de Controle do Tabagismo, que fornece gratuitamente acompanhamento psicológico, adesivos e gomas de nicotina e medicamentos que auxiliam na fissura pelo cigarro.