Diamante Negro

Leônidas da Silva: o jogador que revolucionou o futebol e ganhou homenagem com chocolate

Por trás do jogador que popularizou a bicicleta e batizou um dos chocolates mais famosos do país, havia um ativista antirracista, o arquiteto do primeiro sindicato de atletas e um visionário do marketing

Leônidas da Silva
Leônidas da Silva teve atuação fundamental dentro e fora de campo (Foto: Reprodução/ Ana Fogaça - UP)

Se hoje o futebol é uma máquina bilionária movida a contratos de imagem, direitos trabalhistas e atletas transformados em marcas globais, é porque essa engrenagem começou a ser montada na década de 1930 por um homem de apenas 1,65m e que calçava número 36.

Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, o “Homem-Borracha”, é frequentemente evocado em preto e branco. Lembram dele flutuando no ar para desafiar a gravidade com a jogada da bicicleta, ou como o artilheiro isolado da Copa do Mundo de 1938, na França. Mas a história oficial comete um crime de omissão contra Leônidas. Ao reduzi-lo aos noventa minutos de campo, o revisionismo histórico apaga o cidadão tridimensional: o homem do subúrbio carioca que aos 17 anos já era pai de família, desafiou o racismo velado de sua época e que usou sua genialidade como moeda de troca para cavar direitos sociais para a classe trabalhadora.

Com base em cartas institucionais, medalhas e crônicas de época, além do raro acervo físico guardado por seu sobrinho-neto, José Roberto Brandi dos Santos, esta matéria resgata os grandes marcos e as nuances esquecidas do primeiro gênio pop do esporte brasileiro.

A física do impossível e a injustiça francesa

Diz a lenda, chancelada pelos dados oficiais revisados pela FIFA, que a eficiência de Leônidas em Copas do Mundo é, até hoje, uma anomalia estatística. Em jogos de mata-mata de Mundiais, o Diamante Negro ostenta a média de 1,6 gol por partida. 

O ápice dessa plasticidade ocorreu na França, em 1938. Foi ali que o mundo viu pela primeira vez a “bicicleta”. O movimento de costas para o gol, com o corpo totalmente paralelo ao solo, chocou os juízes europeus. E em um misto de ignorância técnica e assombro o gol foi anulado.

A história, porém, cobra seus juros. Exatamente 60 anos depois, na Copa do Mundo de 1998, a própria Federação Francesa de Futebol redimiu-se do equívoco histórico. O comitê organizador cunhou uma medalha oficial comemorativa com a silhueta de Leônidas aplicando a bicicleta no ar. Uma joia de metal que hoje repousa no acervo físico do craque.

O gol descalço

Sob uma chuva torrencial no Stade de la Meinau, em Estrasburgo, o Brasil enfrentava a Polônia em meio ao lamaçal. O placar apontava um tenso 5 a 5 quando a chuteira de Leônidas sofreu uma avaria grave: abriu-se por completo na ponta, a tradicional “boca de jacaré”.

Irritado, o craque jogou a chuteira para a linha lateral. Ele e a comissão técnica tentaram desesperadamente encontrar um calçado reserva com os gandulas e a molecada que trabalhava na beira do gramado europeu. Mas, enquanto jovens franceses tinham pés grandes, calçando entre 40 e 43,  Leônidas calçava número 36 .Sem opções e com o jogo em andamento, o jogador decidiu continuar com um pé descalço.

Momentos depois, o goleiro polonês tentou repor a bola em jogo. O chute rebateu na zaga e subiu na direção do Diamante Negro. Sem tempo para pensar, ele armou a perna e bateu de primeira, de pé descalço, estufando as redes polonesas. Um gol legítimo, validado pelo árbitro Ivan Eklind, que se tornou o primeiro, único e eterno gol descalço da história dos mundiais.

Acervo de Leônidas da Silva
Detalhe do acervo do ex-atacante, reunindo pertences de uso pessoal e recordações de coberturas internacionais das quais participou após a aposentadoria dos gramados. (Foto: Ana Fogaça – UP)

A doce imortalidade do Diamante

A consagração na Copa de 1938 não apenas mudou o patamar técnico do futebol brasileiro, mas inaugurou a era do marketing esportivo no país. Foi na Europa que o apelido definitivo ganhou o mundo. Os jornalistas franceses, maravilhados com a preciosidade do futebol de Leônidas, apelidaram-no de “Le Diamant Noir” (O Diamante Negro).

Quando desembarcou em solo brasileiro, a alcunha já havia se transformado em um verdadeiro fenômeno de massas. Percebendo o magnetismo comercial daquele homem que arrastava multidões, a fábrica de chocolates Lacta enxergou uma oportunidade inédita. Em uma época em que contratos de direito de imagem de atletas eram inexistentes no país, a empresa propôs um acordo histórico para batizar o seu novo chocolate com o apelido do craque.

Leônidas recebeu a quantia de 20 contos de réis pelo uso de seu codinome. O valor era uma verdadeira fortuna para a época, mas o retorno para a marca foi imensurável. O chocolate “Diamante Negro”, lançado em homenagem ao jogador, tornou-se imediatamente um dos maiores sucessos de vendas da história do mercado alimentício brasileiro. O doce atravessou gerações e permanece nas prateleiras até hoje, embora muitos consumidores modernos sequer saibam que o nome estampado na embalagem nasceu do talento de um homem negro que encantou o mundo em 1938.

O arquiteto dos direitos trabalhistas 

O recorte mais profundo e menos publicado de sua trajetória não envolve bolas ou gramados, mas leis. Vindo de origens humildes no subúrbio do Rio de Janeiro, Leônidas perdeu o pai muito cedo e viu sua irmã falecer com apenas 17 anos. Sentindo na pele a vulnerabilidade da classe operária, ele percebeu que os jogadores de futebol de sua época eram tratados como mercadorias descartáveis. Quando o esporte caminhava para a profissionalização, não existia amparo legal, garantia de salário ou direito à aposentadoria.

Em 1935, Leônidas tomou a frente e idealizou a criação do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Mas o craque aplicou uma estratégia de humildade e vigilância. Ao ser questionado sobre qual cargo ocuparia na liderança, ele recusou a presidência. Conforme conta seu sobrinho-neto, José Roberto Brandi, o jogador fez questão de afirmar que não queria ser presidente e nem vice, exigindo o cargo de tesoureiro. O motivo era nobre: Leônidas sabia que muitos de seus companheiros de profissão não sabiam ler nem escrever, e queria estar em uma posição em que pudesse fiscalizar as finanças de perto, garantindo que ninguém tentasse passar a perna nos atletas e assegurando que tudo estivesse de acordo. 

Mais do que organizar a categoria, Leônidas foi até o gabinete do presidente Getúlio Vargas e tornou-se o primeiro jogador de futebol do Brasil a ter a Carteira de Trabalho assinada. A partir daquele momento, o maior ídolo da nação usou seu prestígio para fazer uma campanha nacional obrigando os clubes a registrarem seus atletas. Ele transformou o “ganha-pão” do futebol em uma profissão digna perante as leis do país.

Fora dos gramados

Após se aposentar em 1951, Leônidas migrou para os microfones da Rádio Panamericana (atual Jovem Pan), onde sua postura firme e sem papas na língua lhe rendeu nada menos que 7 prêmios Roquette Pinto — o ápice do reconhecimento da comunicação brasileira. Ele era o comentarista que previa os desastres; em 1949, após romper com o técnico Flávio Costa, ele disparou na imprensa: “O Brasil ganhará o Sul-Americano, mas perderá fatalmente a Copa de 50”. A profecia do Maracanazo cumpriu-se à risca.

Mas o seu último grande gol foi de concreto e grama. Ao assumir um cargo no Departamento de Lazer do Trabalhador na Secretaria do Trabalho do Estado de São Paulo, Leônidas olhou para a Zona Leste da capital, uma região periférica e operária que carecia de espaços públicos. Até o fim dos anos 60, a área do Jardim Anália Franco era uma reserva fechada conhecida como Mata Paula Souza, um local ermo e perigoso. 

Leônidas tomou a frente do processo político. Usando sua reputação e trânsito com os governantes, convenceu o governador Roberto de Abreu Sodré a decretar a desapropriação da mata em 1970. Leônidas tornou-se o primeiro diretor do CERET (Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador), inaugurado nos anos 70.

Ele desenhou o complexo de 286 mil metros quadrados para ser um templo gratuito da dignidade operária: quadras de saibro, campos de futebol e piscinas acessíveis a quem nunca pudera pagar um clube privado. Sob sua gestão, ele conseguiu transferir a famosa réplica da estátua de Davi, de Michelangelo, que decorava o Pacaembu, para a entrada do CERET, simbolizando que a alta cultura e o esporte pertenciam, por direito, ao povo trabalhador.

As dores ocultas e o guardião do legado

Há uma ferida íntima na história de Leônidas que seu acervo e as memórias da família finalmente trazem à luz: o racismo institucionalizado que o perseguia mesmo no topo do mundo. Seu sobrinho-neto, José Roberto Brandi, revela que, embora Leônidas parasse festas inteiras de aniversário quando chegava, existia um preconceito velado e doloroso contra ele dentro da própria família de sua esposa por ele ser negro. Sua tia-avó passava os dias revoltada com a discriminação sofrida pelo marido. 

Os últimos trinta anos de Leônidas da Silva foram vividos no recolhimento. O Mal de Alzheimer encarregou-se de apagar da sua mente a física perfeita da bicicleta, a audácia da assinatura da carteira de trabalho número um e o eco dos milhares de adeptos que gritavam o seu nome. Quando faleceu, a 24 de janeiro de 2004, muitos julgaram que a sua história ficaria confinada às caixas de chocolate nos supermercados ou às letras de bronze nos portões do CERET.

Estavam profundamente enganados. Enquanto houver um jogador de futebol a assinar um contrato de trabalho protegido por lei, Leônidas estará lá. Enquanto houver um miúdo na periferia a pontapear uma bola descalço na lama sonhando com o impossível, Leônidas estará lá. E enquanto o seu sobrinho-neto continuar a percorrer o país, abrindo caixas antigas para mostrar ao mundo os uniformes das décadas de 50 e 70, os cronómetros da Philco e as medalhas pesadas de 1934 e 1938, o Diamante Negro recusar-se-á a ser esquecido.

Para quem deseja ver de perto esse pedaço vivo da memória nacional, o acervo histórico está em exibição em Curitiba até o dia 1º de julho de 2026, no Shopping Boulevard (localizado no bairro Xaxim), com entrada inteiramente gratuita. 

Projeto Focas na Massa: Texto produzido pela aluna Ana Fogaça, do 5° período do curso de Jornalismo da Universidade Positivo; texto revisado e com supervisão de Guilherme Becker.

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