ALERTA

El Niño intensifica eventos extremos e pode ampliar casos de doenças infecciosas

Com a confirmação do El Niño, cresce a preocupação com o aumento de doenças infecciosas, ondas de calor e desafios para os serviços de atendimento médico

Efeitos do El Niño
Segundo especialistas, os efeitos do El Niño variam conforme a região do país. (Foto: Jonathan Ford - Unsplash)

A intensificação de eventos climáticos extremos tem levado especialistas a alertarem para os efeitos das mudanças no clima sobre a saúde da população. Com a confirmação do El Niño, fenômeno marcado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, cresce a preocupação com o aumento de doenças infecciosas, ondas de calor e desafios para os serviços de atendimento médico.

Uma pesquisa realizada pelo Aurora Lab em parceria com a More in Common Brasil mostrou que 85% dos brasileiros entrevistados já percebem impactos das mudanças climáticas no dia a dia. O levantamento, feito entre maio e setembro de 2025 em nove capitais do país, apontou que os principais efeitos sentidos pela população são o aumento do custo de vida (53%), problemas de saúde física (45%), dificuldades de acesso ao trabalho (40%) e piora da saúde mental (32%).

Segundo especialistas, os efeitos do El Niño variam conforme a região do país. No Sul, o fenômeno costuma estar associado ao aumento das chuvas, favorecendo ocorrências como enchentes, alagamentos e deslizamentos. Já no Norte e Nordeste, o cenário tende a ser de redução das precipitações e temperaturas mais elevadas.

Mudanças no clima acendem alerta para a saúde pública

A infectologista Viviane Hessel, dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, explica que os eventos climáticos extremos podem criar condições favoráveis para a disseminação de doenças. “No caso da leptospirose, a bactéria pode penetrar pela pele durante o contato com a água contaminada”, afirma.

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Em períodos de enchentes, segundo a especialista, muitas famílias precisam deixar suas casas e buscar abrigos temporários, o que aumenta as dificuldades relacionadas ao acesso à água potável, alimentação, medicamentos e atendimento médico. Ambientes coletivos também podem facilitar a transmissão de doenças respiratórias e favorecer surtos, principalmente entre grupos mais vulneráveis.

Além das doenças infecciosas, outro ponto de atenção é o avanço das superbactérias. A médica destaca que já existem estudos indicando que o aumento das temperaturas pode contribuir para a disseminação de genes de resistência entre bactérias, tanto fora quanto dentro dos hospitais.

Um estudo publicado em maio de 2026 na revista científica The Lancet Planetary Health identificou crescimento global de 10% nos genes de resistência a antibióticos associados às mudanças climáticas. A análise considerou mais de 480 mil genomas de Salmonella coletados em 139 países entre 1940 e 2023.

Segundo Viviane, infecções causadas por microrganismos resistentes costumam exigir tratamentos mais complexos e podem apresentar maior risco de complicações. Para reduzir esses impactos, ela reforça a importância de medidas de prevenção nos hospitais, como higiene das mãos, limpeza adequada de equipamentos e cumprimento dos protocolos de controle de infecções.

Calor extremo aumenta risco de internações

Enquanto o Sul enfrenta maior risco de chuvas intensas, outras regiões do país lidam com os efeitos das ondas de calor. No Norte e Nordeste, o El Niño pode intensificar períodos de seca e temperaturas elevadas, aumentando os riscos para a saúde.

Um estudo divulgado em junho de 2026, realizado por pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apontou que mais de 120 mil mortes foram associadas ao calor extremo no Brasil entre 2000 e 2019. Do total de óbitos relacionados às ondas de calor, cerca de 97 mil ocorreram entre idosos com 65 anos ou mais.

As principais causas associadas foram doenças cardiovasculares e respiratórias. Para Viviane Hessel, períodos prolongados de calor intenso podem agravar problemas respiratórios devido à piora da qualidade do ar e aumentar casos de desidratação, especialmente entre idosos.

A especialista destaca ainda que os impactos das mudanças climáticas não atingem todos da mesma forma. Idosos, recém-nascidos, pessoas com doenças crônicas, desnutrição ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica tendem a apresentar maior risco de complicações e necessidade de hospitalização.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) também recomenda o fortalecimento da vigilância epidemiológica e da estrutura dos serviços de saúde para garantir atendimento adequado durante períodos de eventos climáticos extremos.

Para mais informações sobre saúde, acesse o Massa.com.br.