nova opção
FILANTROPIA NA SAÚDE
Responsáveis por mais da metade dos atendimentos ao SUS no estado, hospitais filantrópicos são pilares da saúde no Paraná
Com apenas oito dias de vida, Higor Batista de Paula foi internado com suspeita de uma pneumonia grave em Imbituva, no interior do Paraná. Encaminhado ao Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, exames revelaram que o problema era outro: uma cardiopatia congênita. Aos 25 dias, ele passou pelo primeiro procedimento cirúrgico. Pouco mais de um ano depois, retornou à instituição para a cirurgia de correção total do coração. Todo o tratamento foi realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Tempos depois, o hospital voltou a fazer parte da rotina da família: “Meu filho, quando tinha 6 anos de idade, após dores fortes nas pernas, foi diagnosticado com escoliose”, diz Valdineia de Paula França, mãe de Higor. Atualmente, aos 13 anos, ele está novamente em tratamento no hospital sob cuidado de uma equipe multiprofissional que inclui ortopedia, psicologia e apoio educacional. A trajetória do menino evidencia como os hospitais filantrópicos acompanham o paciente ao longo da vida e se tornaram pilares da assistência em saúde no Paraná.
Histórias como a de Higor se repetem diariamente no Hospital Pequeno Príncipe, instituição filantrópica que nasceu no início do século 20. Fundado em 1919 a partir da mobilização da sociedade civil, o hospital se consolidou, ao longo das décadas, como uma das principais referências pediátricas do país.
Ao longo de mais de um século, o crescimento do hospital acompanhou as transformações da saúde pública no Paraná. Com o passar das décadas, ampliou a estrutura, incorporou novas especialidades e passou a atender casos de média e alta complexidade, recebendo pacientes de todas as regiões do estado e também de outras partes do país.
Hoje, a instituição integra uma rede filantrópica que sustenta parte significativa do atendimento pediátrico no SUS. Segundo a Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Estado do Paraná (Femipa), os hospitais filantrópicos são responsáveis por mais de 50% dos atendimentos ao SUS no estado e chegam a responder por cerca de 70% dos procedimentos de alta complexidade. Na prática, isso significa que boa parte das cirurgias, internações e tratamentos especializados depende diretamente deste modelo.
Para o presidente da Femipa, Dr. Charles London, a atuação das santas casas e dos hospitais filantrópicos é resultado de uma construção histórica que antecede o próprio SUS. Segundo ele, antes da consolidação do sistema público, as instituições já atuavam como principal porta de entrada para o atendimento hospitalar em muitas cidades do Paraná: “Elas nasceram da solidariedade, do compromisso comunitário e da vocação para servir. E, ao longo de décadas, ajudaram a formar profissionais, estruturar redes regionais e garantir assistência onde mais se precisava”, afirma.
Além do volume de atendimentos, a filantropia em saúde no Paraná passou por um processo de profissionalização ao longo dos anos. Segundo o presidente da Femipa, os hospitais filantrópicos incorporaram rotinas modernas de governança, controle de qualidade, metas assistenciais, compliance, auditorias e gestão baseada em indicadores, em resposta à necessidade de garantir eficiência operacional diante de margens financeiras cada vez mais apertadas.
No caso do Hospital Pequeno Príncipe, a filantropia também se traduz em ações que vão além do tratamento clínico. Programas como o Família Participante permitem que pais e responsáveis acompanhem as crianças durante a internação, enquanto o setor de Educação e Cultura garante a continuidade do aprendizado escolar, mesmo durante longos períodos de tratamento. Para famílias como a de Higor, este suporte faz diferença no enfrentamento da doença e na rotina fora do hospital.
Cerca de 74% dos atendimentos da instituição são destinados a pacientes do SUS, índice superior ao mínimo exigido para hospitais filantrópicos. O hospital atende em 47 especialidades e áreas da pediatria e concentra serviços como oncologia, cardiologia, transplantes de órgãos sólidos e de medula óssea, além de ser centro de referência em doenças raras. Em 2024, realizou mais de 20 mil cirurgias, 293 transplantes e ultrapassou a marca de 1 milhão de exames, recebendo pacientes de todas as regiões do Brasil.
Para o diretor-corporativo do Hospital Pequeno Príncipe, José Álvaro Carneiro, ser um hospital filantrópico e exclusivamente pediátrico significa sustentar uma parte essencial do sistema de saúde. “Em um contexto em que cerca de 75% da população brasileira depende exclusivamente do SUS, os hospitais filantrópicos respondem por mais de 60% da assistência de alta complexidade no país”, destaca. Na pediatria, esse papel é ainda mais concentrado: segundo ele, as instituições reúnem aproximadamente 68% dos leitos de UTI pediátrica do SUS e realizam mais da metade dos atendimentos oncológicos infantis.
De acordo com a Femipa, os hospitais filantrópicos estão presentes em praticamente todas as regiões do Paraná e, em muitos municípios, são o principal — e, em alguns casos, o único — ponto de acesso à assistência hospitalar de média e alta complexidade. Para o presidente da entidade, Dr. Charles London, “o SUS no Paraná simplesmente não se sustentaria da forma como existe hoje sem a rede filantrópica”.
Além da assistência direta, os hospitais filantrópicos também exercem papel estratégico na formação de profissionais e no fortalecimento das políticas públicas de saúde. Reconhecido como hospital de ensino desde a década de 1970, o Hospital Pequeno Príncipe já formou mais de dois mil especialistas em pediatria e mantém atuação integrada entre assistência, ensino e pesquisa. “Atendemos 110 mil crianças todos os anos, muitas delas em situações de alta complexidade, o que nos permite identificar padrões e necessidades que dialogam diretamente com a formulação de políticas públicas para a pediatria”, afirma José Álvaro Carneiro.
O alcance da atuação se revela, sobretudo, nas histórias de crianças e famílias que dependem diariamente da rede filantrópica para acessar cuidados especializados. É o caso de Arcangel Miguel Manzo Romero, que percorreu mais de três mil quilômetros, desde Roraima até Curitiba, para realizar um transplante hepático no Hospital Pequeno Príncipe. Diagnosticado ainda nos primeiros meses de vida com atresia biliar — uma obstrução progressiva dos ductos biliares — ele chegou à instituição em estado grave.
No hospital, Arcangel passou por um período de estabilização clínica enquanto aguardava condições para entrar na fila do transplante. “A equipe médica procurou entender o caso do Arcangel, e nos receberam muito bem desde o primeiro dia. Meu filho saiu da UTI, e recebemos alta enquanto esperávamos ele ganhar peso para entrar na fila do transplante hepático”, relata a mãe, Eismer de Los Angeles Romero Medina.
Quando o momento chegou, a resposta foi rápida. “Então, meu menino entrou na fila e, no mesmo dia, recebi a ligação de que era para voltarmos para o hospital pois tinham um órgão compatível. Foi um milagre. Ainda não acredito, pois foram horas, muito rápido”, lembra. Durante a cirurgia, a família teve o suporte da equipe multiprofissional. Hoje, Arcangel segue em acompanhamento e a família permanece em Curitiba, com apoio do Serviço Social e do Programa Família Participante da instituição.
Apesar da relevância assistencial, o modelo filantrópico convive com desafios permanentes de sustentabilidade financeira, especialmente diante dos custos crescentes da assistência em saúde. No Paraná, a realidade se traduz em hospitais que atendem majoritariamente pelo SUS, mantêm portas abertas para toda a população e, ao mesmo tempo, precisam investir continuamente em tecnologia, infraestrutura, formação de equipes especializadas e atualização de protocolos clínicos.
Neste contexto, a filantropia passou a ocupar um papel estruturante na área da saúde paranaense. As santas casas e os hospitais filantrópicos não apenas absorvem grande parte da demanda, como também organizam fluxos regionais de atendimento, reduzem vazios assistenciais e garantem que serviços de alta complexidade estejam disponíveis fora dos grandes centros.
Da mobilização comunitária que deu origem às primeiras instituições até os atuais centros de referência em especialidades de alta complexidade, a filantropia acompanhou, e muitas vezes antecipou, as transformações do sistema público de saúde. Reconhecer a trajetória significa reconhecer que o desenvolvimento da saúde no estado não se deu apenas por políticas públicas formais, mas também pelo engajamento contínuo da sociedade civil, pela solidariedade organizada e pela capacidade das instituições de se reinventarem ao longo do tempo.
A trajetória dos hospitais filantrópicos no Paraná mostra que a construção da saúde pública no estado não se deu apenas por estruturas formais, mas por uma rede contínua de cuidado, organizada ao longo do tempo pela sociedade civil. Ao combinar assistência, ensino, inovação e alcance territorial, as instituições seguem exercendo um papel que vai além do atendimento: estruturam caminhos, reduzem desigualdades e garantem que a alta complexidade chegue a quem precisa, onde for necessário.