Inédito

Mãe de 5 filhos recebe coração artificial em cirurgia custeada pelo SUS no Paraná

Andressa Banach, de 38 anos, tinha incompatibilidade com 99% dos doadores de órgãos e encontrou no dispositivo HeartMate 3 a chance de voltar aos 5 filhos

Andressa Banach, de 38 anos, tinha incompatibilidade com 99% dos doadores de órgãos. Ela, o marido e os 5 filhos no hospital após a alta.
Primeira paciente do Paraná recebe coração artificial pelo SUS (Foto: SESA)

Andressa Fátima Reinaldi Banach, de 38 anos, tornou-se a primeira paciente da história do Paraná a receber um coração artificial financiado integralmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O procedimento inédito foi viabilizado por uma articulaçãoda Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), com centros hospitalares de alta complexidade.

Andressa sofria de insuficiência cardíaca grave e refratária, que é quando os medicamentos já não fazem mais efeito, desenvolvida após o parto do seu quinto filho. A dilatação progressiva do coração fez o órgão perder a capacidade de bombear o sangue. Para agravar o cenário, exames do Hospital do Rocio, em Campo Largo, revelaram que a paciente possuía um painel imunológico de 99% de sensibilização (provocado por gestações anteriores). Na prática, o organismo de Andressa rejeitaria de forma imediata o órgão de quase qualquer doador, impedindo o transplante tradicional.

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Logística interestadual e UTI aérea

A única alternativa para a dona de casa era o implante do HeartMate 3, um dispositivo de assistência ventricular de última geração. Como o procedimento pelo SUS é restrito a centros habilitados, a Sesa estruturou uma operação de Tratamento Fora de Domicílio (TFD).

Andressa foi transferida para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, credenciado pelo programa Proadi-SUS, onde passou pela cirurgia de implante no dia 12 de maio. Após a estabilização, no dia 20 de maio, a paciente retornou ao solo paranaense a bordo de uma UTI aérea do Estado, sendo acolhida na ala cardiológica do Hospital do Rocio para o pós-operatório, recebendo alta definitiva para voltar para casa no dia 29 de maio.

Marcely Gimenes Bonatto, cardiologista especialista em insuficiência cardíaca e transplantes, explica que Andressa terá um acompanhamento pós-operatório rigoroso para toda a vida.

“A gente vai ter toda a atenção para esse lado direito do coração, para os outros órgãos e para a máquina. A gente precisa controlar a anticoagulação da Andressa para que não tenha trombose no dispositivo”, detalhou a médica.

Como funciona a tecnologia do HeartMate 3?

O coração artificial implantado não substitui o órgão biológico, mas funciona acoplado a ele. O HeartMate 3 é uma minibomba inserida no ventrículo esquerdo do coração, para bombear o sangue para o resto do corpo.

O diferencial do aparelho é o uso de tecnologia de levitação magnética. O rotor interno fica suspenso no ar por campos magnéticos, sem rolamentos mecânicos. Isso reduz drasticamente o atrito com as células sanguíneas, diminuindo o desgaste da máquina e evitando a formação de coágulos e tromboses. O sistema é conectado por um cabo que sai do abdômen da paciente até um controlador externo, que pode ser alimentado por baterias portáteis presas à cintura durante o dia ou ligado à tomada durante a noite.

“Não foi apenas uma cirurgia, vocês devolveram uma mãe para cinco filhos”

Para receber alta, a rotina de Andressa exigiu a preparação de uma rede de apoio. O marido, Alisson da Silva Ferreira, e a irmã, Natally Banach, passaram por um treinamento de assepsia e operação dos monitores para atuarem como cuidadores. Eles aprenderam a realizar curativos estéreis no abdômen para evitar infecções e a identificar os alarmes da bateria.

A evolução clínica vai permitir que Andressa retome sua autonomia física, incluindo atos simples que a doença havia interrompido, como tomar banho em pé ou carregar o bebê no colo.

“Agora a expectativa é que eu faça tudo o que eu tenho que fazer, que eu pegue o meu filho no colo. O intuito desse aparelho é que eu tenha uma vida normal como era antes de eu ter essa doença”, contou Andressa. “Eu tive só essa oportunidade para viver e cuidar dos meus filhos. E eu sou grata a isso. Não foi apenas uma cirurgia, vocês devolveram uma mãe para cinco filhos”, concluiu.

Incorporação definitiva do procedimento no SUS

O procedimento de Andressa foi financiado pelo Proadi-SUS, programa que converte imunidades fiscais de hospitais de excelência em tecnologia para a rede pública. O acompanhamento ambulatorial e os insumos de Andressa serão custeados vitaliciamente pela Sesa.

O caso pioneiro antecipa uma nova realidade nacional. O implante desse tipo de dispositivo foi oficialmente incorporado à tabela definitiva do SUS após recomendação da Conitec, passando a ser indicado como “terapia de destino” para pacientes cardíacos graves que possuem contraindicações médicas para receber um transplante humano.

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