Segurança

Bolsonaro diz que recebeu oferta direta para compra da CoronaVac e levanta suspeita sobre Butantan

Presidente Jair Bolsonaro segura máscara de proteção ao deixar hospital em São Paulo
Presidente Jair Bolsonaro segura máscara de proteção ao deixar hospital em São Paulo

BRASÍLIA (Reuters) -O presidente Jair Bolsonaro levantou suspeitas nesta quinta-feira sobre o preço cobrado pelo Instituto Butantan pela vacina CoronaVac, envasada no Brasil com insumos do laboratório chinês Sinovac, e alegou ter recebido uma proposta melhor diretamente do fabricante chinês do imunizante.

Em entrevista à rádio Banda B, do Paraná, Bolsonaro garantiu que o governo federal recebeu uma proposta diretamente da China para venda da CoronaVac a 5 dólares a dose, enquanto o Butantan vendeu a vacina por 10 dólares a dose.

O presidente não apresentou documentos ou detalhes sobre a proposta.

“O que fizemos de imediato: Queiroga (Marcelo, ministro da Saúde) conversou comigo, encaminhamos para a Controladoria-Geral da União, o Ministério da Justiça e hoje encaminharemos ao Tribunal de Contas da União para ser investigado porque metade do preço agora”, disse Bolsonaro.

O presidente, que não apresentou esses documentos e não quis dar detalhes, disse também que o Instituto Butantan teria sido comunicado para que explicasse a diferença de valores.

“Pode ser que não haja nada errado, mas o Butantan nunca nos apresentou as planilhas de preço, o custo final de cada vacina”, alegou Bolsonaro, que é adversário político do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), um dos maiores entusiastas do acordo entre Sinovac e Butantan, que é vinculado ao governo paulista.

Em nota oficial, o Butantan disse ter sido informado no início de julho que o consórcio global de vacinas Covax Facility, do qual o Brasil faz parte, ofertou vacinas ao Ministério da Saúde a preço de custo, na quantidade de apenas 500 mil doses.

O instituto afirmou ainda que a negociação feita com o Ministério da Saúde para a entrega de 100 milhões de doses incluiu a apresentação da planilha de custos da vacina para as equipes técnicas do governo federal, e que o Butantan se responsabiliza por todas as etapas que se referem ao imunizante e entrega o produto pronto à pasta.

“O valor final das vacinas ofertadas pelo Butantan inclui todas as despesas ordinárias diretas e indiretas, incluindo o preço pago à SinoVac, os custos de importação (taxa de administração, frete, seguro do produto, tributos e impostos), os custos de produção (envase, recravação, rotulagem e embalagem), custos dos testes de qualidade, administrativos e regulatórios, armazenagem e transporte”, afirmou.

Além de levantar suspeita sobre o Butantan, Bolsonaro mais uma vez criticou e questionou a CoronaVac, e voltou a colocar em dúvida a eficácia da vacina.

Ao comentar a alegada proposta, Bolsonaro disse que ainda não sabe se o governo brasileiro aceitaria, porque, segundo ele, “não adianta comprar mais x milhões da CoronaVac se a população não quer tomar”.

No entanto, recentemente, a empresa fez uma nota desmentindo que outras empresas pudessem revender a CoronaVac no Brasil, ao responder alegações de que a importadora catarinense World Brands tivesse o poder de oferecer doses da vacina ao Ministério da Saúde.

“A vacina contra Covid-19 CoronaVac é desenvolvida, fabricada e distribuída pela Sinovac Ltd. No Brasil, apenas o Instituto Butantan, nosso parceiro exclusivo, pode comprar a CoronaVac. Qualquer informação divulgada por qualquer empresa sem autorização da Sinovac não tem qualquer importância legal”, disse a nota divulgada no dia 18.

Procurado pela Reuters para dar mais informações sobre a proposta, o Ministério da Saúde não respondeu de imediato. A Reuters também contatou o laboratório Sinovac, mas não obteve uma resposta de imediato.

Apesar da declaração de Bolsonaro de que a população não quer receber a CoronaVac, segundo dados do Ministério da Saúde, das 128,4 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 já aplicadas no Brasil, 38,8% foram doses da CoronaVac. A vacina chinesa envasada pelo Butantan deu a largada na campanha de vacinação contra o coronavírus no Brasil em 17 de janeiro deste ano.

O Butantan já entregou 57,6 milhões de doses da CoronaVac ao Programa Nacional de Imunização (PNI) do Ministério da Saúde e promete totalizar 100 milhões de doses do imunizante entregues à pasta até o final do mês que vem.

Também ao contrário do que afirmou Bolsonaro, estudos clínicos feito no Brasil mostraram que a CoronaVac tem eficácia geral de 50,38% –acima do patamar mínimo de 50% apontado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para considerar uma vacina eficaz– e mostrou-se 78% eficaz contra casos leves, em que pacientes precisaram de alguma assistência clínica, e 100% eficaz contra casos graves e que levam à internação e contra mortes causadas pela doença.

Além disso, estudo feito com a vacina na cidade de Serrana, interior de São Paulo, mostrou que a vacinação em massa da população adulta do município levou a uma redução de 95% das mortes por Covid-19, de 86% nas internações causadas pela doença e de 80% nos casos sintomáticos.

(Reportagem de Lisandra ParaguassuReportagem adicional de Eduardo Simões, em São PauloEdição de Pedro Fonseca e Alexandre Caverni)

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