MISTÉRIO
PM levada morta ao hospital tinha marcas de chicotada; marido foi preso
FEMINICÍDIO
A Polícia Civil trata o caso como feminicídio consumado; vítima estava com lesões no corpo
A morte da capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) Michele Leão Azevedo, de 41 anos, passou a ser investigada como feminicídio após a oficial dar entrada já sem vida no Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, na noite de segunda-feira (20). Ela foi levada à unidade pelo próprio marido, o 3º sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, que acabou preso em flagrante.
A investigação da Polícia Civil de Minas Gerais passou a reunir elementos que colocam em dúvida a versão apresentada pelo militar e indicam, segundo relatos de familiares e testemunhas, um possível histórico de violência psicológica, controle e humilhações dentro do relacionamento.
Michele Leão Azevedo construiu uma trajetória marcada por cursos e especializações na área de segurança pública e direitos humanos. A capitã concluiu o curso de formação complementar de Multiplicador de Direitos Humanos oferecido pela própria PMMG e também tinha especialização em docência do Ensino Superior pelo Instituto Federal do Sul de Minas (IFSULDEMINAS).
Ela era casada havia cerca de oito anos com Eduardo Abner Pereira de Oliveira, que ingressou na PMMG em 2015 e atualmente era lotado no 1º Batalhão da corporação. Além da atuação policial, Eduardo já ocupou o cargo de diretor jurídico da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra/PMBM).
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Após o caso ganhar repercussão, a entidade informou que o militar havia sido desligado anteriormente por questões disciplinares, após uma infração às regras internas em junho de 2025. O sargento também possui dois boletins de ocorrência registrados por violência doméstica, nos anos de 2014 e 2016, mas os casos não envolvem Michele.
Segundo depoimento prestado pela mãe da capitã à Polícia Civil, Michele Leão Azevedo vivia um relacionamento considerado abusivo. A mãe afirmou que a filha era alvo de humilhações, controle e manipulação emocional por parte do marido. Ainda conforme o relato, Michele teria tentado encerrar o relacionamento, mas Eduardo não aceitava a separação.
Em uma das situações citadas pela família, após uma discussão entre o casal, o sargento teria permanecido em frente à casa da mãe da capitã.
No dia da morte, Michele tinha um encontro marcado com a mãe. Ela chegou a atender uma ligação falando em tom baixo e disse que não poderia comparecer. Depois disso, parou de responder às mensagens enviadas pela mãe.
Em depoimento, Eduardo afirmou que o casal realizou uma festa em casa no domingo (19). Segundo ele, após a saída dos convidados, os dois teriam consumido bebidas alcoólicas e comprimidos de ecstasy. O militar relatou ainda que ele e Michele mantinham relações sexuais consensuais com práticas envolvendo dominação e agressões físicas, que teriam sido registradas em vídeo.
Segundo a versão apresentada por Eduardo, por volta do meio-dia, Michele teria caído de uma escada da residência, sofrido um corte profundo na cabeça e reclamado de tonturas.
Ele afirmou que limpou os ferimentos, controlou o sangramento e que a esposa teria recusado atendimento médico por medo das consequências disciplinares relacionadas ao uso de drogas.
Ainda conforme o depoimento, os dois dormiram e, somente por volta das 21h, ele percebeu que Michele não respondia mais aos estímulos. Foi então que decidiu levá-la ao Hospital Odilon Behrens. A versão, porém, passou a ser contestada após os primeiros exames realizados na unidade de saúde.
De acordo com o boletim de ocorrência, Michele chegou ao hospital por volta das 21h35 já sem sinais vitais. A médica responsável pelo atendimento informou que a capitã apresentava quadro de assistolia, compatível com uma parada cardiorrespiratória ocorrida entre quatro e seis horas antes da chegada à unidade.
Além do traumatismo craniano, os profissionais identificaram diversas lesões pelo corpo da vítima, incluindo marcas compatíveis com chicotadas e um ferimento considerado grave na região da face.
Durante coletiva de imprensa, a Polícia Civil afirmou que a quantidade e a gravidade dos ferimentos foram fatores determinantes para a prisão do marido. Segundo o delegado Saulo Castro, havia uma “lesão muito contundente na face” da vítima, além de outras marcas que, inicialmente, não seriam compatíveis com a explicação apresentada pelo suspeito.
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores ocorreu dentro do próprio hospital. Enquanto aguardava atendimento policial, Eduardo pediu para ir ao banheiro e foi flagrado por um policial militar descartando uma caixa com 18 comprimidos de ecstasy em uma lixeira.
O material foi apreendido, e o sargento passou a responder também por tráfico de drogas. A polícia agora analisa a origem dos comprimidos e todas as circunstâncias envolvendo o uso da substância na noite anterior à morte.
A Polícia Civil apura ainda o histórico do relacionamento entre Michele e Eduardo. Testemunhas relataram que o casal tinha uma relação marcada por idas e vindas e possíveis episódios de violência psicológica e moral.
Os investigadores também buscam identificar se existiam outros registros de agressões ou denúncias envolvendo o casal. Laudos periciais, depoimentos, imagens e provas digitais devem ajudar a esclarecer a causa da morte e a dinâmica dos acontecimentos.
Eduardo Abner Pereira de Oliveira permanece preso. A defesa informou que aguarda a conclusão das investigações e dos exames periciais antes de se manifestar sobre as acusações. A Polícia Civil trata o caso como feminicídio consumado.
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