NEGÓCIOS LOCAIS

Curitiba vive expansão do empreendedorismo fora do eixo central e bairros ganham protagonismo

Com avanço fora do eixo tradicional, pequenos negócios redesenham a economia de Curitiba e ganham força em bairros como CIC, Sítio Cercado e Cajuru

Sebrae/PR
Empreendedorismo em Curitiba cresce nos bairros e revela novos perfis. (Foto: Agência Sebrae de Notícias)

Ainda antes do meio-dia, as panelas já estão no fogo no apartamento de Elisangela Brandão, no bairro Cidade Industrial, em Curitiba. Entre idas ao mercado, preparo, resfriamento e embalagem, a rotina é intensa e precisa. Cada etapa define a qualidade das cerca de 300 sopas que ela produz por semana.

A “Soparia da Elis” nasceu de forma improvisada, em um dos momentos mais difíceis dos últimos anos. “Comecei durante o lockdown, no frio, servindo os moradores do condomínio”, lembra. “Eu sempre amei sopas, mas não tinha tempo de fazer porque trabalhava em um shopping e chegava tarde em casa”.

O que começou como uma solução pontual, virou empresa. Atualmente, formalizada como Microempreendedor Individual (MEI), ela tem no negócio sua principal fonte de renda — e encontrou algo que vai além do financeiro: “Ganhei a liberdade de conciliar a casa com o trabalho”, diz Elisangela.

Expansão territorial dos pequenos negócios

A trajetória de Elisangela acompanha um movimento maior. Entre 2021 e 2026, o número de empresas ativas em Curitiba saltou de 109,7 mil para 182,8 mil — um crescimento de 66,6%, segundo dados da Receita Federal organizados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Mais do que aumentar em números, o empreendedorismo em Curitiba vem se redistribuindo pelo território. Regiões fora do eixo tradicional ganham protagonismo neste movimento. O bairro Cidade Industrial de Curitiba lidera essa transformação: o número de MEIs saltou de 10 mil em 2021 para 18 mil em abril de 2026, uma alta de 79,8%.

Na sequência aparecem os bairros Sítio Cercado, com crescimento de 72,2%, e Cajuru, com 70,3%. Outras regiões também seguem o mesmo caminho, como Tatuquara, que registrou alta de 97,3% no período.

“O empreendedorismo descentralizado em Curitiba vem avançando para regiões fora do eixo mais consolidado (centro e bairros tradicionais). O crescimento está ligado à expansão urbana, maior acesso a formalização, necessidade de geração de renda e as políticas públicas instituídas. São quatro escritórios do Sebrae, 10 Salas do Empreendedor e 1 Ponto de Atendimento para contribuir neste cenário”, explica Aglaine Keller, consultora do Sebrae/PR.

Segundo ela, os microempreendedores individuais têm papel central neste processo. “Eles representam a maior parte das novas formalizações e são estratégicos para geração de renda e inclusão produtiva”.

Empresas que nascem dentro de casa

Na prática, o crescimento se traduz em histórias como a de Elisangela: com pequenos empreendimentos que surgem dentro de casa e se expandem com base na demanda local. O dia dela começa cedo, com a compra de ingredientes frescos. Depois vem o preparo, o resfriamento, a embalagem e a organização dos pedidos.

“Agora, fora do inverno, faço em média 80 sopas por dia”, destaca. As vendas acontecem principalmente durante o dia, e os clientes vão além do bairro. De acordo com a microempreendedora, a expansão veio com o uso das redes sociais.

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“Depois que fiz o Instagram e comecei a divulgar para toda Curitiba, o negócio cresceu”, afirma. Segundo ela, o crescimento também foi impulsionado por um plano de ação estruturado com apoio do Sebrae.

Hoje, a proprietária da “Soparia da Elis”, que mora no bairro Cidade Industrial de Curitiba há 10 anos, já pensa em novos passos. “Quero expandir, atender mais clientes e ter uma loja própria”, diz.

Do grafite às vendas internacionais

No bairro Sítio Cercado, a expansão do empreendedorismo passa por outro caminho: o digital. Morador da região há mais de 30 anos, Paulo Santos nunca havia trabalhado com moda. Sua ligação sempre foi com o grafite e a cultura de rua de Curitiba.

A ideia de criar camisetas surgiu de forma inesperada, a partir de um seguidor nas redes sociais. “Eu pensei que, se vendesse 10 camisetas, já estaria ótimo. No lançamento, vendi 30”, conta.

Em dois anos, a marca ultrapassou mil peças vendidas. Atualmente, comercializa entre 70 e 80 camisetas por mês com a ACORJA CWB, que funciona quase totalmente no ambiente online. “O empreendedorismo me ajudou a reativar aquilo que eu já tinha dentro de mim […] Hoje eu trabalho com aquilo que eu gosto, então fica fácil acordar já pensando nas camisetas e dormir também em função disso”, destaca o microempreendedor.

Cerca de 90% das vendas vêm do Instagram, com relacionamento direto via WhatsApp. Além de Curitiba e Região Metropolitana, Paulo já vendeu para estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul — e até para países da Europa, como Alemanha, França, Itália, Bélgica e Portugal.

“Isso me chamou muita atenção. Pessoas que não conhecem a gente comprando o produto”, diz. “Nosso crescimento foi mais orgânico, agora estou começando a investir em anúncios”.

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Sozinho, ele cuida de praticamente todas as etapas da marca — da criação das peças ao contato com fornecedores, produção, divulgação e vendas. “Eu faço tudo: crio, produzo, posto no Instagram, falo com o cliente, fecho a venda e entrego”, resume.

A estratégia está diretamente ligada à identidade local e à vivência nas ruas. “É o que dá credibilidade. As pessoas se identificam, sentem que fazem parte disso”, relata. “Fecho muitas vendas por causa do que chamo de ‘memória afetiva’. São referências do que a população via nos muros quando era adolescente, há 15, 20 anos, e hoje vê nas roupas”, afirma Paulo.

A conexão também aparece nos detalhes: cada estampa carrega referências da cidade, e a etiqueta traz a assinatura “Made in Curitiba”. Com o crescimento, os próximos passos já estão no radar. “Tenho pretensão de futuramente ter uma loja própria, assim que o site for finalizado”, projeta.

Capacitação e formalização como diferencial

Já no bairro Cajuru, a criação de empresas avança junto com a qualificação. Mariana Cristina Iglesias trabalhava no setor bancário quando decidiu mudar de rumo. Após ser demitida, passou a investir no que já fazia em casa: maquiagem, penteados e venda de bijuterias autorais.

“Eu já fazia, mas sem profissionalização. Quando decidi buscar capacitação, as coisas começaram a acontecer”, conta. A virada veio com a formalização como MEI e a busca por qualificação, incluindo cursos e orientação no Sebrae.

“A partir disso, comecei a enxergar a empresa de outra forma. Também passei a me sentir mais confiante por ter uma fonte de renda própria”, afirma. Hoje, Mariana divide a rotina entre atendimentos de beleza e a venda de acessórios. Ela trabalha com maquiagem e penteados para festas, noivas e debutantes, e complementa a renda com a comercialização de bijuterias.

O empreendimento funciona dentro de um salão conhecido do bairro, além de atendimentos em domicílio. No mesmo espaço, ela expõe as peças e integra os dois serviços como estratégia de venda. “Exponho minhas bijuterias no local de atendimento e estou impulsionando os dois nichos nas redes sociais”, explica.

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O público, em sua maioria, vem da própria região — um reflexo da proximidade e da construção de confiança no território onde vive há mais de 30 anos. Para ela, essa conexão local é um diferencial competitivo. “Moro aqui há muito tempo, então isso facilita tanto na logística quanto no relacionamento com as clientes”, diz.

Os números ainda são iniciais, mas indicam trajetória de expansão: o faturamento gira em torno de R$ 2,5 mil mensais, com média de oito atendimentos de beleza e cerca de 20 vendas de bijuterias por mês. Segundo Mariana, o negócio só começou a crescer depois que ela investiu em qualificação. “Muita gente empreende, mas nem sempre busca se especializar. Eu acredito que isso faz diferença para crescer”.

Com a empresa em expansão, os próximos passos já estão definidos. “Pretendo aumentar o volume de atendimentos às noivas, ter um espaço com mais estrutura e formar uma equipe para escalar as atividades. Quero me tornar referência na minha região”, finaliza.

O avanço dos negócios e o desafio da permanência

Dados da Receita Federal, levantados pelo Sebrae, ajudam a dimensionar o perfil e os desafios deste novo ciclo de empreendedorismo na capital. O setor de serviços concentra 67,4% das empresas ativas na cidade, reunindo atividades como alimentação, beleza, transporte e atendimentos personalizados. Na sequência, aparecem comércio (16%), indústria (9,1%) e construção civil (7,2%).

O perfil do empreendedor curitibano é marcado pelo equilíbrio e pela experiência. Com uma idade média de 40 anos, a força empresarial da cidade é composta por 94.500 homens e 88.396 mulheres. Embora a presença masculina ainda seja superior, a diferença entre os gêneros é pequena, com a participação feminina atingindo a marca de 48% do total de negócios locais.

O conjunto de dados ajuda a explicar uma característica central do empreendedorismo na capital: a predominância de empresas de menor porte, com baixo investimento inicial e forte conexão com a demanda local. Mais da metade dos negócios (53,2%) está na fase inicial, com até três anos e meio de funcionamento. Já 30,4% são consideradas estabelecidas, com até nove anos, enquanto apenas 7,7% ultrapassam uma década de existência. Outros 8,7% têm menos de três meses.

Os números revelam um ambiente dinâmico, mas marcado por alta rotatividade. Em 2025, Curitiba registrou a abertura de 54,1 mil negócios e o fechamento de 32,7 mil, resultando em um saldo positivo de 21,3 mil novas empresas. Apesar disso, a taxa de encerramento chegou a 60,6% no período. Em 2024, o índice foi ainda maior, atingindo 67%.

A tendência se repete ao longo dos últimos anos: em 2021, a taxa de encerramento era de 41,8%; em 2022, subiu para 50,2%; e em 2023, chegou a 64,4%. Em 2026, até o momento, o índice gira em torno de 57,2%. Embora o empreendedorismo avance de forma consistente, a consolidação das empresas ainda é um dos principais desafios, especialmente nos primeiros anos de atividade.

Uma nova geografia do empreendedorismo

O avanço da atividade empreendedora para além das regiões centrais também está diretamente ligado à ampliação de políticas de apoio e à presença institucional nos territórios. “Atuamos com atendimentos, orientações e consultorias, apoiando tanto quem deseja começar quanto quem já tem um negócio e quer crescer, com capacitações, cursos e oficinas”, diz Aglaine Keller, consultora do Sebrae/PR. 

A atuação do Sebrae acompanha o movimento de expansão das pequenas empresas para bairros fora do eixo tradicional, aproximando os serviços de quem empreende. “Hoje, temos um atendimento descentralizado por meio das Salas do Empreendedor, em parceria com a Agência Curitiba e a Prefeitura Municipal”, relata.

Além do atendimento direto, o Sebrae também atua na produção de inteligência de mercado. Estudos, levantamentos e guias de oportunidades são elaborados para orientar empreendedores sobre onde investir e como estruturar suas empresas com mais chances de sucesso. “Em 2026, inauguramos três novos escritórios físicos nos bairros Boa Vista, CIC e Santa Felicidade. A ação faz parte da estratégia de ampliar nossa presença e estar ainda mais próximos destes públicos”, destaca Aglaine.

Segundo ela, a proximidade territorial permite desenvolver ações mais alinhadas à realidade de cada região. “Conseguimos criar programas de capacitação com conteúdo adaptado ao contexto local, a partir do relacionamento direto com os empresários”.

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Curitiba vê avanço do empreendedorismo, com destaque para o CIC, Sítio Cercado e Cajuru. (Foto: Agência Sebrae de Notícias)

A atuação também inclui projetos regionais voltados às vocações econômicas específicas de cada bairro — uma forma de estimular o desenvolvimento de cadeias produtivas já existentes ou com potencial de crescimento. “Também trabalhamos com o desenvolvimento de projetos focados nas vocações de cada território”, explica.

Outro exemplo citado é a Feira do Empreendedor, realizada anualmente em setembro, que reúne empreendedores, especialistas e oportunidades de mercado. “O evento conecta oportunidades e contribui para a abertura de novos mercados para estes negócios”, conta.

Para o Sebrae, o desafio agora vai além da abertura de empresas. “Nosso foco é garantir que as empresas cresçam, se consolidem e evoluam ao longo do tempo”, afirma Aglaine. 

Mais do que crescer em números, o empreendedorismo em Curitiba avança em território e começa a redesenhar, bairro a bairro, a dinâmica econômica da cidade. O movimento, puxado sobretudo pelos microempreendedores individuais, ganha força fora do eixo tradicional e se consolida em regiões como CIC, Sítio Cercado e Cajuru, onde empresas nascem próximas de onde as pessoas vivem, atendem demandas locais e, cada vez mais, encontram caminhos para crescer.

Neste cenário, o que antes surgia como alternativa de renda passa a se consolidar como estratégia de desenvolvimento, combinando iniciativa individual, acesso à formalização, uso de ferramentas digitais e apoio institucional. Entre desafios e oportunidades, os microempreendedores não apenas ampliam a atividade econômica, mas ajudam a construir uma nova lógica de crescimento — mais distribuída, conectada ao território e presente no cotidiano da cidade.